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«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós: Recebei o Espírito Santo»

Domingo de Pentecostes

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Com os santos do Carmelo

Refere São João da Cruz

«Esta chama de amor é o espírito do seu Esposo, o Espírito Santo. A alma sente-O já dentro de si, não só como fogo que a consome e transforma em amor suave, mas também como fogo que nela arde e deita chamas, como se disse. E sempre que aquela chama arde, banha de glória a alma e refrigera-a com o gosto da vida divina.» (Chama de amor viva 1, 3).

Meditação

Hoje, celebramos o Pentecostes, um dia que marca a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e significa o nascimento da missão da Igreja. Este acontecimento, muitas vezes chamado o “aniversário da Igreja”, é crucial para compreender a nossa fé e o papel do Espírito Santo nas nossas vidas. O Pentecostes, que ocorre cinquenta dias depois da Páscoa, comemora o dia em que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, enchendo-os com o poder de pregar o Evangelho a todas as nações. Tal como é descrito nos Atos dos Apóstolos, um som semelhante a um vento violento encheu a casa onde estavam sentados, e pousaram sobre cada um deles línguas de fogo, que lhes permitiram falar em diferentes línguas (Actos 2:1-4). Este milagre significa o carácter universal da Igreja. O Espírito Santo é a força protetora da missão da Igreja. De acordo com o Concílio Vaticano II, a Igreja é “missionária por sua própria natureza”. Cada cristão batizado é chamado a ser missionário, dando testemunho de  Cristo através das suas palavras e ações. O Papa Francisco sublinha que a Igreja deve ir para além dos seus muros, indo ao encontro dos que estão à margem da sociedade. O Espírito Santo não é apenas uma figura histórica, mas uma presença ativa nas nossas vidas de hoje. O Espírito guia-nos, inspira-nos e dá-nos poder para vivermos a nossa fé de forma autêntica. É através do Espírito que recebemos vários dons espirituais, que usamos para nos servirmos uns aos outros e edificar a Igreja. São Paulo recorda-nos que estes dons provêm do mesmo Espírito e que, embora sejamos  diferentes, o Espírito une-nos na nossa missão (1 Coríntios 12,4-6). O Pentecostes também nos ensina sobre a unidade que o Espírito Santo traz. Apesar das nossas diferenças de língua, cultura e antecedentes, o Espírito une-nos como um só corpo em Cristo. Ao reflectirmos sobre o Pentecostes, somos chamados a abrir os nossos corações ao Espírito Santo, permitindo que Ele nos transforme e guie as nossas ações. O Papa Francisco encoraja-nos a deixar de lado as nossas tentativas de controlar tudo e a abrirmo-nos às surpresas do Espírito. Neste Domingo de Pentecostes, renovemos o nosso compromisso de viver segundo o Espírito Santo. Que sejamos cheios do mesmo Espírito que deu poder aos apóstolos, permitindo-nos proclamar o Evangelho com ousadia e viver a nossa fé com coragem e compaixão. 

Pe. José Arun

«Foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus»

DOMINGO VII DA PÁSCOA

ASCENSÃO DO SENHOR – SOLENIDADE

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 16, 15-20)


Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

Com os santos do Carmelo

Refere São João da Cruz no seu poema do Cântico Espiritual

36. Gozemo-nos, Amado,

Vejamo-nos em tua formosura!

No monte e no escarpado

Donde nasce água pura,

Bem dentro penetremos da espessura!

37. E depois, às subidas

Cavernas do rochedo nos iremos,

Que estão bem escondidas;

E ali penetraremos

E o mosto das romãs saborearemos.

38. Ali me mostrarias

Aquilo que a minha alma pretendia,

E logo me darias,

Tu, minha alegria,

Aquilo que me deste um outro dia:

Meditação

Hoje, ao comemorarmos a solenidade da Ascensão de Nosso Senhor, temos a oportunidade de refletir sobre a natureza da partida, não só no contexto do regresso de Cristo ao Pai, mas também nas nossas próprias vidas, ao despedirmo-nos dos nossos convidados. Tal como os discípulos reunidos à volta de Jesus no Monte das Oliveiras testemunharam a sua ascensão ao céu, também nós nos encontramos muitas vezes reunidos com os nossos entes queridos, apreciando os momentos que partilhamos juntos. Estas reuniões são preciosas, trazem-nos alegria, riso e um sentimento de pertença. Mas, inevitavelmente, chega uma altura em que temos de nos despedir e os nossos convidados partem, regressando às suas casas, às suas responsabilidades, às suas vidas. A partida dos convidados, tal como a Ascensão de Nosso Senhor, é um momento agridoce. Há um sentimento de tristeza quando nos despedimos, sabendo que sentiremos a falta da sua presença, do seu riso e da sua companhia. Mas há também um sentimento de esperança, porque a sua partida não é o fim, mas uma transição para algo novo.

Do mesmo modo, a Ascensão de Jesus foi um momento de tristeza e de esperança para os seus discípulos. Ficaram tristes por verem o seu amado mestre deixá-los, mas também ficaram cheios de esperança porque Jesus prometeu enviar-lhes o Espírito Santo, que seria o seu advogado e guia. E assim, regressaram a Jerusalém com alegria, aguardando ansiosamente o cumprimento da sua promessa.

Quando nos despedimos dos nossos convidados, lembremo-nos de que a sua partida não é o fim da nossa relação, mas sim a continuação da mesma sob uma forma diferente. Podemos já não ter a sua presença física connosco, mas levamos as suas memórias nos nossos corações e os laços de amizade e amor permanecem fortes. Do mesmo modo, ao contemplarmos a Ascensão de Nosso Senhor, recordemos que Jesus não está longe de nós, mas presente de uma forma diferente, através da presença do Espírito Santo. Tal como prometeu aos seus discípulos, ele está sempre connosco, guiando-nos, confortando-nos e dando-nos força para continuarmos a sua obra no mundo.

Por isso, ao despedirmo-nos dos nossos convidados, façamo-lo com gratidão pelo tempo que partilhámos juntos, com esperança no futuro e com a certeza de que, tal como os discípulos, nunca estamos sós. Porque Cristo subiu ao céu, mas está sempre connosco, até ao fim dos tempos. Amém.

Pe. José Arun, OCD

Imagem retirada: https://pt.churchpop.com/a-ascensao-do-senhor-sua-importancia-teologica-e-liturgica/

«Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos»

DOMINGO VI DA PÁSCOA

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 15, 9-17)


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

Com os santos do Carmelo

Refere Santa Teresa …

«Porque, a meu ver, a oração mental não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós, com Quem sabemos que nos ama. Para o amor ser verdadeiro e duradoura a amizade, a condição do Senhor, que como se sabe é perfeita, há-de juntar-se à nossa, que é viciosa, sensual e ingrata. Talvez não possais acabar por amá-lo tanto por ser outra a vossa condição; mas vendo o quanto ganhais em ter a Sua amizade e o muito que vos ama, passais por esta pena de estar muito com quem é tão diferente de vós.» (Livro da vida 8, 5).

Meditação…

Neste Dia da Mãe, reflitamos sobre o amor profundo e o altruísmo que definem a essência da maternidade, um amor que ressoa profundamente com os ensinamentos de São João, tal como expressos no seu Evangelho, capítulo 15, versículos 9-17. Jesus disse aos seus discípulos: “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa.” Nestas palavras, Jesus revela a natureza sem limites do amor divino, um amor que ultrapassa a compreensão e não conhece limites. É um amor que flui livre e incondicionalmente, abrangendo todos os que abrem os seus corações para o receber. Tal é o amor que as mães encarnam nos seus sacrifícios diários, nutrindo os seus filhos com ternura e devoção. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, ordena Jesus. Este mandato reflecte o instinto maternal de nutrir e cuidar dos outros, de os abraçar com compaixão e compreensão. As mães exemplificam este amor nos seus esforços incansáveis para sustentar as suas famílias, oferecendo orientação, apoio e encorajamento ao longo da jornada da vida. Jesus continua: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos”. Este amor sacrificial reflete o altruísmo das mães, que se entregam de bom grado para o bem dos seus filhos. Quer se trate de dar de comer a altas horas da noite, de confortar uma criança que chora ou de celebrar os seus êxitos, as mães dão sempre prioridade ao bem-estar e à felicidade dos seus entes queridos acima de tudo. Ao celebrarmos o Dia da Mãe, honremos as mulheres notáveis que moldaram as nossas vidas com o seu amor e devoção. Agradeçamos o seu apoio inabalável, a sua ternura e a sua presença duradoura. E que nós, inspirados pelo seu exemplo, nos esforcemos por imitar o amor sem limites que define tanto a maternidade como os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

P. José Arun

Imagem retirada: https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2024-05/por-018/amar-e-dar-a-propria-vida.html

«Quem permanece em Mim e Eu nele dá muito fruto»

Domingo V da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 15, 1-8)


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».

Com os santos do Carmelo

Refere Santa Teresa…

«Uma alma em estado de graça é límpida como uma fonte cristalina da qual todos os regatos que dela brotam são límpidos. Deste modo, as suas obras são sumamente agradáveis aos olhos de Deus e dos homens porque procedem desta fonte de vida onde a alma, como uma árvore, ali se encontra plantada. A pujança e o fruto que tem, não os teria se dela não lhe viesse, porque a fonte a sustém, não a deixa secar e faz com que dê bons frutos.» (1Moradas 2, 2)

Meditação

O Evangelho de hoje convida-nos a refletir profundamente sobre a profunda metáfora da videira e dos ramos, uma metáfora que diz muito sobre a nossa relação com Deus e o nosso objetivo na vida. Jesus começa por dizer: “Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o viticultor”. Aqui, Jesus identifica-se como a fonte da vida, a verdadeira videira de onde brotam todo o alimento e crescimento. Ele enfatiza a ligação íntima entre ele e os seus discípulos, comparando-os a ramos que devem permanecer ligados à videira. Como ramos da videira, somos chamados a dar fruto. Mas o que é que esse fruto significa na nossa vida? Representa as virtudes e as qualidades que refletem a presença de Deus em nós: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Estes frutos não são apenas para nosso próprio benefício, mas destinam-se a ser partilhados com os outros, enriquecendo a vida dos que nos rodeiam e glorificando Deus. Mas Jesus também nos adverte que, sem ele, nada podemos fazer. Este facto realça a necessidade da nossa união com Cristo, pois é através desta união que encontramos a força e a vitalidade para dar fruto. Tal como um ramo não pode dar fruto por si só se não permanecer na videira, também nós somos impotentes sem Cristo. No entanto, permanecer em Cristo não é um ato passivo, mas exige a nossa participação ativa. Implica permanecer no seu amor, viver de acordo com os seus ensinamentos e alimentar a nossa relação com ele através da oração, das Escrituras e dos sacramentos. Implica entregar a nossa vontade à vontade de Deus, confiar na sua providência e permitir que a sua graça nos transforme a partir de dentro. Além disso, Jesus promete que aqueles que permanecem nele e dão fruto serão podados pelo Pai para que possam dar ainda mais fruto. A poda pode envolver a remoção daquilo que impede o nosso crescimento espiritual – sejam hábitos pecaminosos, apegos ou distrações – para que nos possamos tornar discípulos de Cristo mais frutíferos. O objetivo das nossas vidas é glorificar Deus, e isso só pode ser alcançado permanecendo em Cristo e dando frutos que perdurem. Por isso, acedamos ao convite de Jesus para permanecermos nele, confiando no seu amor e permitindo que a sua vida flua através de nós, para que possamos dar frutos abundantes para a glória de Deus e a salvação das almas. Que o Espírito Santo nos capacite a permanecer em Cristo cada dia mais plenamente, para que nos tornemos ramos frutíferos da videira verdadeira e testemunhas do poder transformador do amor de Deus no mundo. Amém.

Pe. José Arun, Ocd

Ícone Cristo, o Verdadeiro da Videira · Greek School

«O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas»

DOMINGO IV DA PÁSCOA

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 10, 11-18)


Naquele tempo, disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

Com os santos do Carmelo

Refere Santa Teresa

«Entretanto, o grande Rei, que tem a Sua morada neste castelo, viu a  boa vontade deles e, pela Sua grande misericórdia, quer trazê-los de volta para Si. Então, qual bom pastor, com um silvo tão suave que até eles mal  o ouvem, dá-lhes a conhecer a sua voz, fazendo com que não andem tão  perdidos e voltem à sua morada. E este silvo do pastor é tão persuasivo que  eles largam as coisas exteriores que os desviavam e entram no castelo.» (4 Moradas 3,2)

Meditação

Todos sabemos como são populares as imagens de Jesus, o Bom Pastor. Nalgumas dessas imagens, vemos Jesus a segurar uma  ovelha sobre os ombros, segurando as duas patas da frente da ovelha na mão direita e as duas patas de trás na mão esquerda. Esta imagem e outras semelhantes atraem-nos pela ternura de Jesus, pelo seu cuidado com a ovelha e pela sua compaixão. Quando vemos esta imagem, a nossa mente começa naturalmente a vaguear e apercebemo-nos do seu significado pessoal para nós. Nós somos o cordeiro ou a ovelha que Jesus carrega aos ombros. Esta imagem é tranquilizadora para nós; Jesus é o nosso apoio na nossa viagem pela vida. Quando se nos deparam cruzes e problemas, ou quando ocorrem alguns desastres pessoais, esta imagem de Jesus Bom Pastor tranquiliza-nos, pois não estamos abandonados, Jesus apoia-nos e sustenta-nos. No Evangelho de hoje, Jesus proclama que é o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (João 10,11). Um mercenário, diz Jesus, não se preocupa com as suas ovelhas e abandona-as aos lobos, mas Jesus dá a vida pelas suas ovelhas (João 10,12-14). Faz isto porque em Mateus 9,36 e Marcos 6,34 lemos, o ver as multidões, o seu coração compadeceu-se delas, porque estavam perturbadas e abandonadas, como ovelhas sem pastor.

Hoje, ao reunirmo-nos neste abençoado Domingo para refletir sobre o Bom Pastor, somos chamados a contemplar o profundo amor e a orientação que o nosso Senhor oferece a cada um de nós. A imagem do Bom Pastor não é apenas uma metáfora  reconfortante; é uma verdade profunda que fala da própria essência da relação de Deus com o Seu povo. No Evangelho de João, Jesus proclama: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10,11). Estas palavras ressoam profundamente com o amor sacrificial que Cristo demonstrou na cruz, dando a Sua vida para a salvação da humanidade. Como Bom Pastor, Jesus conhece intimamente cada uma das Suas ovelhas, chamando-as pelo nome e conduzindo-as com ternura e

compaixão. Hoje, ao refletirmos sobre o Bom Pastor, recordamos também a importância vital das vocações na Igreja. Neste domingo dedicado à oração pelas vocações, elevemos os nossos corações em oração, pedindo ao Senhor que envie operários para a sua vinha. Rezemos pela coragem e discernimento daqueles que estão a discernir um chamamento ao sacerdócio ou à vida religiosa, para que tenham a força de responder ao chamamento de Deus com generosidade e alegria. Rezemos também pelos nossos atuais sacerdotes, religiosos e religiosas e por todos aqueles que servem no ministério, para que sejam fortalecidos e sustentados pela graça de Deus na sua sagrada vocação. Que continuem a imitar o exemplo do Bom Pastor, conduzindo o Seu rebanho com humildade, compaixão e fé inabalável.

«Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia»

DOMINGO III DA PÁSCOA

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 24, 35-48)


Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».

Com os santos do Carmelo

Refere Santa Teresa

«…permaneçamos pois muito  longe de tudo o que brilha, amemos a nossa pequenez, amemos o nada sentir, seremos então pobres de espírito e Jesus virá [vº] procurar-nos,  por muito longe que estejamos Ele transformar-nos-á em chamas de  amor… Oh! como eu queria fazer-vos compreender o que sinto!… Só a confiança e nada mais do que a confiança tem de conduzir-nos ao Amor…» (Carta 197)

Meditação

A passagem do Evangelho de hoje, de Lucas 24,35-48, leva-nos a um momento crucial no rescaldo da ressurreição de Jesus. Os discípulos estão reunidos, ainda a debater-se com a profunda realidade do regresso do seu Mestre de entre os mortos. No meio da sua descrença e confusão, Jesus aparece no meio deles, oferecendo não só garantias, mas também um profundo apelo à missão e ao objetivo. Ao reflectirmos sobre esta passagem no contexto da nossa vida quotidiana e da Semana das Vocações, lembramo-nos de vários temas-chave que ressoam profundamente com o nosso próprio caminho de fé e discernimento. Em primeiro lugar, consideremos a reação inicial dos discípulos à aparição de Jesus. Ficaram assustados e com medo, pensando que estavam a ver um fantasma. Quantas vezes também nós reagimos com medo e ceticismo quando somos confrontados com o inesperado ou o milagroso nas nossas vidas? A ressurreição desafia as nossas noções preconcebidas e chama-nos a transcender as nossas dúvidas, abrindo-nos ao poder transformador do amor de Deus. Em segundo lugar, Jesus responde à incredulidade dos discípulos com um convite simples mas profundo: “Olhai para as minhas mãos e para os meus pés. Sou eu mesmo! Tocai-me e vede”. No nosso próprio caminho de discernimento, somos chamados a encontrar Cristo no meio das nossas dúvidas e incertezas, a procurar a sua presença nas realidades tangíveis da nossa vida quotidiana. Como os discípulos, somos convidados a tocar as feridas de Cristo, a testemunhar as marcas do seu amor e sacrifício no mundo que nos rodeia. Em terceiro lugar, Jesus encarrega os seus discípulos de serem testemunhas da sua ressurreição, de proclamarem o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações. Este chamamento à missão não se limita a uns poucos seleccionados, mas estende-se a todos e a cada um de nós, independentemente da nossa vocação ou estado de vida. Quer sejamos chamados ao sacerdócio, à vida religiosa, ao matrimónio ou à vida de solteiro, todos somos chamados a ser embaixadores do amor e da misericórdia de Cristo no mundo. Finalmente, consideremos o profundo significado das palavras de Jesus: “Vós sois testemunhas destas coisas”. Como testemunhas da ressurreição, somos chamados a dar testemunho não só com as nossas palavras, mas também com as nossas vidas. As nossas acções, atitudes e escolhas devem refletir o poder transformador da ressurreição de Cristo, oferecendo esperança e cura a um mundo que necessita desesperadamente da misericórdia de Deus. Durante esta Semana das Vocações, escutemos o apelo de Cristo para discernirmos a nossa vocação única e para a abraçarmos com coragem e humildade. Quer sejamos chamados a servir como sacerdotes, religiosos, casais ou pessoas solteiras, esforcemo-nos sempre por ser testemunhas fiéis da ressurreição, partilhando a boa nova do amor de Deus com todos os que encontrarmos.

Pe. José Arun

«Oito dias depois, veio Jesus…»

DOMINGO II DA PÁSCOA ou da Divina Misericórdia

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

Com os santos do Carmelo…

Refere Santa Teresa…

«Oh poderoso amor de Deus! Para quem ama parece que nada há de impossível! Oh, ditosa a alma que chegou a alcançar do seu Deus esta paz! Ela encontra-se acima de todos os trabalhos e perigos do mundo e a nenhum teme por estar ao serviço de tão bom Esposo e Senhor.» (Conceitos do amor de Deus 3, 4).

Meditação

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

Chegámos hoje ao segundo domingo de Páscoa ou ao que se tornou conhecido como o Domingo da Divina Misericórdia. Recordamos com alegria o ano jubilar da misericórdia, quando o Papa Francisco exortou toda a Igreja a descobrir de novo a mensagem e a força do amor misericordioso de Deus, que está à disposição de todos e é esperança para toda a humanidade. Nesse ano, o Papa recordou-nos que a mensagem da misericórdia divina é o próprio coração do Evangelho. Recordou-nos também o que é a Misericórdia Divina – o que acontece quando o amor de Deus se encontra com o pecado, a fraqueza, a rutura e o sofrimento humanos.

Na bela passagem do Evangelho de hoje, vemos o poder da misericórdia divina em ação e notamos os efeitos que ela tem sobre aqueles que a recebem. É a história dos discípulos juntos numa sala com medo. Imaginem como se sentiram: o homem e o líder em quem esperavam estava morto; tinham-no desiludido miseravelmente, como ele previra; receavam que os romanos e os judeus viessem agora também atrás deles. E então aconteceu algo extraordinário. Jesus aparece-lhes. Está vivo! Ficam estupefactos e espantados. Jesus não recorda o passado nem confronta os discípulos com os seus fracassos. Por três vezes, oferece-lhes o dom da sua paz: “A paz esteja convosco! Não admira que estejam cheios de alegria.

Jesus não está preocupado com o facto de ter sido injustiçado. Preocupa-se com eles, com os que escolheu, com os que amou e continuou a amar. Ele viu que a maior necessidade deles era a paz, uma paz que era muito mais profunda do que sentir-se melhor, mas uma paz que era fruto do perdão, da cura e da restauração da esperança e da fé.

Veja-se o exemplo de Tomé. Quando Jesus voltou a aparecer aos discípulos, a sua misericórdia foi ao encontro da falta de fé de Tomé. Repara que a misericórdia de Jesus não o repreende nem o repreende por a sua fé não ser a que devia ser. Nada disso. Em vez disso, a misericórdia divina de Jesus abre espaço para as dúvidas de Tomé e encontra-as respeitosamente. Por causa deste encontro, as dúvidas de Tomé são reconhecidas, mas transformadas numa bela afirmação de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”

Que esperança para nós está contida nesta história? A misericórdia de Deus não ignora as nossas dúvidas, o nosso passado ou as nossas falhas, mas quer curá-las e perdoá-las. A misericórdia de Deus não se limita a perdoar-nos, mas quer também mudar-nos. Tal como a misericórdia de Deus abre espaço para as nossas imperfeições, também a nossa experiência de misericórdia abre espaço para os outros, dilatando os nossos corações na caridade como resposta ao dom gratuito do amor misericordioso de Deus. Repara como a experiência da misericórdia divina dos discípulos no Evangelho de hoje é igual à da primeira leitura, em que a comunidade da Igreja primitiva abraçou a misericórdia social, preocupando-se com “todos os membros que pudessem estar em necessidade”. O facto de recebermos misericórdia torna-nos mais misericordiosos. Somos chamados a mostrar misericórdia porque a misericórdia nos é mostrada, uma e outra vez.

E assim, nesta bela festa da Divina Misericórdia, agradecemos com admiração a experiência da misericórdia de Deus, mostrada e oferecida através de Jesus e soprada sobre nós através do Espírito Santo. É uma misericórdia que abre espaço para nós e nos desafia a abrir espaço para os outros. Nas palavras finais do Papa Francisco: “A misericórdia coloca-nos no contexto de um discernimento pastoral cheio de amor misericordioso, sempre pronto a compreender, perdoar, acompanhar, esperar e, sobretudo, integrar. É esta a mentalidade que deve prevalecer na Igreja e levar-nos a abrir o nosso coração aos que vivem nas periferias da sociedade” (A Alegria do Amor, 312).

Louvado seja nosso senhor jesus cristo.

P. Tomás Muzhuthett

Alegrai-vos, Cristo ressuscitou do túmulo!

DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. João (20, 1-9)


No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro¬. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro:¬ viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Com os santos do Carmelo

Refere Santa Teresa…

«Se estais alegres, vede-O ressuscitado, pois só com imaginar a sua saída do sepulcro vos alegrareis. Que esplendor e formosura! Que majestade! Que vitorioso e alegre! É como quem saiu triunfante da batalha onde conquistou um tão grande reino que, juntamente com Ele, quer que seja todo vosso. Será muito voltar alguma vez os olhos para Aquele que tanto vos dá?» (Caminho de Perfeição 26, 4).

Meditação

Escuta, Adão, e alegra-te com Eva, pois aquele que vos despojou a ambos e, com o seu engano, vos tornou cativos foi reduzido à impotência na cruz de Cristo. Hoje, ó Cristo, aboliste o império da morte com o teu poder e libertaste, ó dador da vida, as almas dos homens graças à tua ressurreição, Tu, nosso Salvador. Como a multidão dos anjos no Céu, assim o género humano celebra na terra a santíssima Ressurreição da tua bondade, Senhor. Hoje, Cristo ressuscitou do túmulo, do qual fez sair a incorruptibilidade para todos os mortais, e, na sua misericórdia, inaugurou com as portadoras de perfumes a alegria da ressurreição. Desperta-nos do túmulo do pecado, nós, mortos pela multidão das nossas paixões, ó Salvador, verdadeiro amigo do homem, que pela tua ressurreição destruíste a tirania da morte. Alegrai-vos, sábias perfumistas, mulheres que fostes as primeiras a ver a ressurreição de Cristo e que anunciastes aos apóstolos a ressurreição de todo o mundo. Adoro-te, Pai sem princípio que és a vida, adoro contigo o teu Filho Eterno que é a vida, vida e fonte viva é o Espírito Santo: glorifico a única e Vida verdadeira.

Livro das Horas do Sinai (século IX)

Macarismos da Ressurreição, SC 486

«Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade.»

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

Evangelho Segundo São Marcos (15, 1-39)
Naquele tempo, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho, logo de manhã, com os anciãos e os escribas, isto é, todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O a Pilatos. Pilatos perguntou-Lhe: «Tu és o rei dos judeus?». Jesus respondeu: «É como dizes». E os príncipes dos sacerdotes faziam muitas acusações contra Ele. Pilatos interrogou-O de novo: «Não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam». Mas Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurretos, que numa revolta tinham cometido um assassínio. A multião, subindo, começou a pedir o que era costume conceder-lhes. Pilatos respondeu: «Quereis que vos solte o rei dos judeus?». Ele sabia que os príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes: «Então, que hei de fazer d’Aquele que chamais o rei dos judeus?». Eles gritaram de novo: «Crucifica-O!». Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?». Mas eles gritaram ainda mais: «Crucifica-O!». Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado. Os soldados levaram-n’O para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a corte. Revestiram-n’O com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido. Depois começaram a saudá-l’O: «Salve, rei dos judeus!». Batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida levaram-n’O dali para O crucificarem. Requisitaram, para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de Alexandre e Rufo. E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. Depois crucificaram-n’O. E repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um. Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo: «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz». Os príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo: «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos». Até os que estavam crucificados com Ele O injuriavam. Quando chegou o meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. E às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eloí, Eloí, lemá sabactáni?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram: «Está a chamar por Elias». Alguém correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse: «Deixa ver se Elias vem tirá-l’O dali». Então Jesus, soltando um grande brado, expirou. O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era Filho de Deus».

Com os santos do Carmelo

Refere Santa Teresa…

No dia de Ramos, acabando de comungar, (…). O Senhor disse-me: “Filha, eu quero que o meu sangue te aproveite, e que não tenhas medo que a minha misericórdia te falte. Eu derramei-o com muitas dores e tu, como vês, gozas dele com grande deleite. Desta maneira, pago-te bem o banquete que me oferecias neste dia”. Falou assim porque, há mais de trinta anos, sempre que podia, eu comungava neste dia de Ramos e procurava preparar a minha alma para hospedar o Senhor. (Contas de Consciência 26).

Meditação…

Queres entender quem é Deus? Basta que te ajoelhes junto à cruz, dizia o grande teólogo Karl Ranher. A Cruz é sinal de redenção, sacrifício, esperança, libertação. Foi nela que o Redentor se entregou à morte por todos nós, estendendo assim o Reino de Deus a todos os povos. No percurso efetuado até chegar à cruz foi preciso derramar lágrimas e orar ao Pai para que tivesse força e não desistisse. Jesus sofreu as angústias e tristezas que o mundo nos oferece, tudo para aliviar as nossas dores e sofrimentos. Com a sua flagelação e os espinhos coloca-nos coragem para que não sejamos influenciados pela melancolia do mundo, e pelo seu desespero. Jesus ao morrer e ao entregar o seu espírito ao Pai, reanima-nos a esperança de uma vida eterna e aumenta a nossa fé na Ressurreição. Hoje Jesus continua em agonia e dor por muitos que sofrem, continua crucificado em todos os seus irmãos vítimas de guerras, de injustiças. Todos nós podemos participar na eterna paixão de Deus, se, tal como as mulheres no calvário, estivermos perto das cruzes dos nossos irmãos que mais sofrem. Abracemos os nossos irmãos e digamos a todos os que se sentem em tristeza que se lembrem da agonia de Jesus, por todos os que sofrem o sarcasmo de outros homens se lembrem da tortura de Jesus, os que perderam a vontade de viver, que se lembrem do brado de Jesus, por todos os que perderam a esperança que se lembrem da ressurreição de Jesus.

Frei David, Ocd

«Quem procura a verdade procura Deus»

DOMINGO V DA QUARESMA

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 12, 20-33)


Naquele tempo, alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Filipe foi dizê-lo a André; e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

Com os santos do Carmelo

Refere Edith Stein…

“Querida Mãe, permita-me, Vossa Reverência, que me ofereça ao Coração de Jesus como vítima propiciatória pela verdadeira paz: que o poder do anticristo, se possível, caia sem uma nova guerra mundial, e que se estabeleça uma nova ordem de coisas. Gostaria de o fazer ainda hoje, agora que são 12 horas. Sei que não sou nada, mas Jesus quer isso, e certamente nestes dias chamará muitos outros para isso”. (Carta à Madre Ottilia Thannisch OCD, Etch, Domingo da Paixão, 26 de março de 1939).

Meditação

«Senhor, nós queríamos ver Jesus.» Alguns gregos são símbolo da nossa procura de Jesus. Que procuramos nós nas nossas vidas?  Edith Stein dizia que aquele que procura a verdade procura a Deus mesmo sem o saber. Contudo, esta procura de verdade pode ser acompanha de curiosidade, o que poderá levar a desilusões. A verdade que nos referimos é uma Verdade que se aplica a todos, é universal, é uma verdade que é capaz de unir. Uma verdade que nos liberta, não é uma verdade que cada um pode construir como Nietzsche dizia, mas a Verdade de uma pessoa, que se entregou e deu a sua vida por todos: Jesus Cristo. Quando procuramos a verdade devemos estar abertos aos desafios e exigências colocadas por essa procura, porque a Verdade só se manifestará quando de facto estamos com o coração humilde e verdadeiro. Mesmo que sejamos impulsionados pelo Espírito Santo e caminhemos com desejo de ver o rosto de Jesus, não significa que o que vamos ouvir e ver seja agradável. Todavia, Jesus é claro, vou morrer numa cruz e depois podereis olhar para mim, através da minha morte atrairei a muitos, ou seja, dará muitos frutos. Quem O quiser seguir esqueça-se de si mesmo e deixe tudo o que lhe prende. Jesus desafia-nos: se Me queres ver olha para a cruz e aí verás a vitória, aí tereis a vida, aí podereis ser glorificados. Jesus chama e atrai muitos, mas nem todos querem seguir as suas exigências. Esta é a verdade do cristianismo: a Cruz é o símbolo da salvação para todos. O que Jesus pede é que olhemos para ele. Olhando para ele, sem palavras, confessamos que ele é o centro e o sentido da nossa vida, o impulso das nossas obras, a meta do nosso caminho, a nossa vida!

Fr. David, Ocd