Batismo do Senhor (Ano A)

Evangelho segundo São Mateus (3, 13-17)

Irmãos e irmãs,

Hoje celebramos o Batismo do Senhor, um momento decisivo no início da vida pública de Jesus. À primeira vista, este acontecimento pode causar-nos estranheza: Jesus, o Filho de Deus, sem pecado, aproxima-se de João para receber um batismo de penitência. O próprio João Baptista se sente desconcertado e diz: «Sou eu que preciso de ser baptizado por Ti, e Tu vens ter comigo?»

Este diálogo revela-nos algo essencial sobre Deus. Jesus não se coloca acima da humanidade, mas entra plenamente na nossa condição. Ele não se afasta dos pecadores, não se apresenta como alguém distante, mas faz-se solidário connosco. Ao descer às águas do Jordão, Jesus desce às águas da nossa fragilidade, da nossa história marcada pelo pecado, para a transformar e redimir.

Quando Jesus sai da água, o céu abre-se. Este pormenor é profundamente simbólico: o céu, fechado pelo pecado, volta a abrir-se. Em Jesus, a comunhão entre Deus e a humanidade é restaurada. O Espírito Santo desce em forma de pomba, sinal de vida nova, de paz e de criação renovada. É o mesmo Espírito que nos foi dado no nosso baptismo.

E escuta-se a voz do Pai: «Este é o meu Filho muito amado, em quem pus todo o meu agrado.» Estas palavras não são apenas dirigidas a Jesus; nelas está contida também a nossa identidade. Pelo Baptismo, cada um de nós se torna filho amado de Deus. Antes de qualquer mérito, antes de qualquer obra, Deus chama-nos seus filhos e ama-nos profundamente.

Esta festa convida-nos, por isso, a recordar e renovar o nosso próprio Baptismo. Fomos baptizados não apenas com água, mas com o Espírito Santo. Fomos mergulhados na vida de Deus e chamados a viver como filhos, não como escravos do medo ou do pecado.

Mas o Baptismo é também uma missão. Assim como, depois do Jordão, Jesus inicia a sua missão, também nós somos enviados a testemunhar o Evangelho. Ser baptizado é comprometer-se a viver segundo o Evangelho, a escolher a humildade em vez do orgulho, o serviço em vez do poder, o amor em vez da indiferença.

Peçamos hoje ao Senhor que nos ajude a viver de modo fiel a graça do nosso Baptismo. Que o Espírito Santo, que repousou sobre Jesus, renove em nós a alegria de sermos filhos amados do Pai e nos dê a coragem de viver como verdadeiros discípulos de Cristo.

Ámen.

Epifania do Senhor (Ano A)

Caríssimos irmãos e irmãs,

Celebramos hoje a Solenidade da Epifania do Senhor, a festa da manifestação de Jesus Cristo a todos os povos. Se no Natal contemplámos o mistério de Deus feito Menino, hoje a Igreja proclama que esse Menino não pertence apenas a Israel, mas é dom de Deus para toda a humanidade.

O Evangelho apresenta-nos os Magos vindos do Oriente. Não sabemos exactamente quem eram nem quantos eram, mas sabemos algo essencial: eram homens em busca. Observavam os sinais do céu e, ao reconhecerem uma estrela diferente, puseram-se a caminho. A fé começa muitas vezes assim: com uma inquietação interior, com perguntas que não nos deixam tranquilos, com o desejo de encontrar um sentido mais profundo para a vida.

Os Magos representam todos aqueles que, mesmo fora do povo eleito, procuram a verdade com coração sincero. Eles não têm a Lei nem os Profetas, mas têm um coração aberto e atento. Por isso, quando vêem a estrela, não ficam parados a admirá-la: levantam-se e partem. A fé verdadeira implica sempre movimento, saída, caminho.

Em contraste, encontramos o rei Herodes e os habitantes de Jerusalém. Herodes conhece as Escrituras, sabe onde o Messias deve nascer, mas o seu coração está fechado. Em vez de alegria, sente medo; em vez de adoração, sente ameaça. Jerusalém, que deveria reconhecer o seu Salvador, permanece indiferente. Isto lembra-nos que o simples conhecimento religioso não garante um coração convertido.

Os Magos chegam finalmente a Belém e encontram não um rei poderoso, mas um Menino com Maria, sua Mãe. E ajoelham-se. Aqui está o centro da Epifania: Deus manifesta-se na humildade. Aquele que é Senhor do universo deixa-se encontrar na fragilidade de uma criança. Só quem tem um coração simples consegue reconhecer Deus onde Ele escolhe manifestar-Se.

Depois, os Magos oferecem os seus dons: ouro, incenso e mirra. O ouro reconhece Jesus como Rei; o incenso, como Deus; a mirra anuncia o mistério da sua paixão e morte. Estes dons falam também de nós. O que trazemos hoje ao Senhor? O ouro do nosso amor e fidelidade? O incenso da nossa oração? A mirra das nossas dores, entregues com confiança?

Por fim, o Evangelho diz-nos que os Magos regressaram à sua terra por outro caminho. Quem se encontra verdadeiramente com Cristo nunca volta igual. O encontro com Jesus transforma a nossa maneira de viver, de decidir, de caminhar. A Epifania não é apenas uma festa bonita; é um convite à conversão.

Caríssimos irmãos, nesta Eucaristia peçamos a graça de sermos como os Magos: homens e mulheres em busca, capazes de reconhecer os sinais de Deus, dispostos a deixar as nossas seguranças e a adorar o Senhor com um coração sincero. E, depois de O encontrarmos, que tenhamos a coragem de regressar à nossa vida por um caminho novo, levando a luz de Cristo a todos os que encontramos.

Amen.

Sagrada Família de Jesus, Maria e José (Ano A)

Queridos irmãos e irmãs,

Neste Domingo em que celebramos a Festa da Sagrada Família, a Palavra de Deus apresenta-nos uma família muito concreta, muito real, marcada por dificuldades, medo, decisões difíceis e confiança total em Deus. O Evangelho segundo São Mateus fala-nos da fuga para o Egipto e do regresso a Nazaré. Não é um relato romântico, mas profundamente humano.

José, Maria e o Menino Jesus são obrigados a fugir de noite, às pressas, como refugiados, para salvar a vida do Filho. Herodes representa o poder violento, o medo de perder privilégios, a injustiça que ameaça a vida inocente. Jesus, desde o início, experimenta a insegurança, o exílio, a perseguição. Deus escolhe entrar na nossa história não através do conforto, mas da fragilidade.

Aqui encontramos um primeiro ensinamento importante: a Sagrada Família não é idealizada, é santa porque confia em Deus no meio das provações. Quantas famílias hoje vivem situações semelhantes: instabilidade, migração forçada, dificuldades económicas, medo pelo futuro dos filhos, violência, doença. A Sagrada Família aproxima-se de todas elas.

José destaca-se neste Evangelho como homem justo, atento à voz de Deus. Ele não fala, mas age. Escuta o anjo em sonhos e obedece prontamente. Levanta-se, toma o Menino e Sua Mãe e parte. José ensina-nos que amar é proteger, mesmo quando não se compreende tudo; que a verdadeira autoridade na família é serviço e responsabilidade.

Maria, por sua vez, acompanha em silêncio, guardando tudo no coração. Ela confia, mesmo sem garantias humanas. Quantas mães e pais vivem esta mesma entrega silenciosa pelos seus filhos!

Quando Herodes morre, Deus volta a falar. A história não termina no sofrimento. Há um regresso, mas não a Belém: será Nazaré, lugar simples, escondido. Deus cumpre as promessas de forma inesperada. Isto recorda-nos que Deus conduz a história das nossas famílias, mesmo quando os caminhos parecem estranhos ou cheios de desvios.

Celebrar a Sagrada Família é, portanto, celebrar a vocação da família como lugar de fé, de escuta, de amor concreto e perseverante. Não famílias perfeitas, mas famílias que procuram fazer a vontade de Deus no quotidiano.

Que esta festa nos ajude a:

valorizar a família como dom e missão;

apoiar e rezar pelas famílias feridas, deslocadas ou em dificuldade;

aprender com José a escutar Deus e a agir com coragem;

confiar, como Maria, mesmo quando não entendemos tudo.

Peçamos hoje que as nossas famílias sejam verdadeiros lugares onde Deus possa habitar, crescer e ser protegido. Que a Sagrada Família de Nazaré interceda por todas as famílias do mundo.

Amenn.

Domingo IV do Advento (Ano A)

Irmãos e irmãs,

Chegados ao IV Domingo do Advento, encontramo-nos às portas do Natal. A Igreja convida-nos hoje a contemplar o mistério da Encarnação a partir da figura discreta e silenciosa de São José. Se nos domingos anteriores fomos acompanhados por João Baptista e pela Virgem Maria, hoje o Evangelho coloca diante de nós este homem justo, chamado a acolher o mistério de Deus de uma forma particularmente exigente.

São Mateus narra-nos o nascimento de Jesus a partir da situação concreta de José. Maria, sua esposa, encontra-se grávida, e José sabe que não é o pai da criança. Perante esta realidade inesperada e dolorosa, José não reage com dureza nem com condenação. O Evangelho diz-nos que ele era um homem justo. A sua justiça manifesta-se na misericórdia, no respeito e no amor. Decide afastar-se em segredo, para não expor Maria à vergonha nem ao perigo.

É precisamente neste momento de silêncio e de sofrimento interior que Deus fala. O anjo do Senhor aparece-lhe em sonhos e diz-lhe: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa”. O medo é vencido pela confiança. Deus revela-lhe que aquela criança é obra do Espírito Santo e confia-lhe uma missão decisiva: acolher Maria e dar o nome ao Menino, Jesus, Aquele que salvará o seu povo dos pecados.

José é chamado a acolher um plano que ultrapassa completamente os seus projectos pessoais. Não compreende tudo, mas confia. Não exige provas, nem pede explicações adicionais. O Evangelho diz simplesmente: “José fez como o anjo do Senhor lhe ordenara”. Neste Advento, José ensina-nos que preparar o Natal não é apenas criar um ambiente exterior, mas abrir espaço interior para que Deus entre, mesmo quando isso implica mudar os nossos planos.

Ao dar o nome ao Menino, José introduz Jesus na descendência de David, cumprindo as promessas antigas e tornando-se cooperador activo do plano da salvação. Deus quis precisar da obediência humilde de um homem para que o Seu Filho tivesse um lugar na história humana.

Irmãos e irmãs, às vésperas do Natal, este Evangelho convida-nos a não ter medo de acolher Deus na nossa vida. Mesmo quando não compreendemos tudo, mesmo quando o caminho parece incerto, Deus permanece fiel. Ele é o Emanuel, o Deus connosco, Aquele que entra na nossa história para a salvar a partir de dentro.

Peçamos hoje a intercessão de São José para que, como ele, saibamos escutar a voz de Deus no silêncio, confiar mais do que temer e acolher Jesus com um coração simples e disponível, para que o Natal que se aproxima seja verdadeiro e transformador.

Amen.

Domingo III do Advento (Ano A)

Irmãos e irmãs,

A liturgia deste terceiro Domingo do Advento convida-nos à alegria. A Igreja chama-lhe tradicionalmente Domingo Gaudete: «Alegrai-vos sempre no Senhor». Mas a Palavra de Deus que escutámos hoje apresenta-nos uma cena surpreendente: João Baptista, o grande profeta, aquele que anunciou com firmeza a vinda do Messias, encontra-se agora na prisão… e na dúvida.

«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»
Esta pergunta, feita por João através dos seus discípulos, não nasce da incredulidade, mas da experiência da prova. João esperava um Messias forte, que julgasse com justiça e libertasse o seu povo. Porém, o que chega até ele são notícias de um Messias manso, que cura, que se aproxima dos pobres, que não derruba prisões nem condena os poderosos.

Quantas vezes também nós, no nosso Advento pessoal, fazemos a mesma pergunta? Quando a vida aperta, quando a doença, a solidão ou a injustiça nos visitam, perguntamos em silêncio: Senhor, és mesmo Tu? Estás a agir? Ou devo esperar outra solução?

Jesus não responde com discursos teóricos. Responde com factos:
«Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova.»
Ou seja, o Reino de Deus já está presente, mesmo que não da forma espetacular que esperamos. Deus age na discrição, na misericórdia, na transformação silenciosa do coração humano.

Depois, Jesus dirige-se à multidão e faz um elogio extraordinário a João Baptista. Não o desvaloriza por ter perguntado. Pelo contrário, afirma que entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João. A dúvida não diminui a fé quando é vivida na verdade e apresentada a Deus.

João é o homem da fronteira: pertence ainda ao Antigo Testamento, mas aponta claramente para o Novo. Ele não é a luz, mas veio para dar testemunho da luz. E ensina-nos algo essencial neste Advento: a verdadeira alegria não está em possuir certezas absolutas, mas em confiar, mesmo no meio da escuridão.

Caríssimos irmãos, o Advento não é apenas um tempo de espera, é um tempo de conversão do olhar. Talvez o Senhor já esteja a agir na nossa vida, mas não como imaginámos. Talvez Ele já esteja a passar, curando, levantando, consolando… e nós não O reconhecemos.

Peçamos hoje a graça de não nos escandalizarmos com um Deus humilde, paciente, próximo dos pobres e frágeis. E aprendamos com João Baptista a apontar sempre para Cristo, mesmo quando a nossa própria fé é provada.

Que Maria, mulher da espera confiante, nos ajude a viver este Advento com uma alegria profunda, feita de esperança e de entrega.

Amen.

Domingo II do Advento (Ano A)

Evangelho: Mateus 3, 1-12

Caríssimos irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do Advento, a liturgia convida-nos a entrar mais profundamente no clima de expectação, de conversão e de esperança que antecede o Natal. Hoje surge diante de nós uma figura austera e poderosa: João Baptista, o precursor, a voz que clama no deserto.

O Evangelho apresenta-nos João a pregar: “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. É assim que começa o seu anúncio. Não com palavras suaves, nem com discursos elaborados, mas com um apelo directo, incisivo, urgente: convertei-vos. João não tem medo de ferir sensibilidades. Ele sabe que, para acolher Cristo, é preciso primeiro abrir espaço no coração, remover o que está torto, endireitar o que está desviado, deixar o Senhor entrar.

O deserto, no contexto bíblico, é um lugar de silêncio, de verdade e de decisão. É ali que o povo faz experiência de Deus e de si mesmo. Todos nós temos desertos interiores: momentos de solidão, de prova, de confusão, de cansaço. Mas é muitas vezes aí que Deus faz ressoar a Sua voz. João Baptista convida-nos a não fugir desses desertos, mas a deixá-los tornar-se lugares de encontro com Deus.

A palavra “conversão” pode assustar. Pensamos logo em grandes mudanças ou em rupturas radicais. Mas a conversão cristã é, antes de mais, um caminho contínuo, um processo, um voltar-se para Deus pouco a pouco, todos os dias.

João usa a imagem das estradas: “Endireitai os caminhos do Senhor”. No Advento, somos chamados a perguntar-nos:

Que caminhos do meu coração precisam de ser endireitados?

Quais são os obstáculos que impedem Jesus de nascer plenamente na minha vida?

Que hábitos, palavras ou atitudes precisam de mudança?

A conversão não é um peso; é uma libertação.

João Baptista é claro: “Produzi frutos dignos de conversão.”
A fé não se pode reduzir a sentimentos ou palavras; precisa de dar fruto na vida concreta. Esses frutos podem ser:

um gesto de reconciliação dentro da família, a paciência diante de alguém difícil, uma escuta mais atenta.

Não se trata de grandes feitos heroicos, mas de frutos simples, reais e luminosos.

Caríssimos irmãos, neste tempo de Advento não nos deixemos distrair apenas pelas luzes exteriores, pelos preparativos ou pela azáfama destes dias. O essencial é permitir que o Senhor encontre em nós um coração disponível, capaz de escutar e de acolher.

Que a voz de João Baptista ecoe hoje dentro de nós: “Preparai o caminho do Senhor!” Preparemo-lo com gestos de amor, com decisões renovadas, com um coração arrependido e confiante.

Ámen.

Retiro de Advento 2025

Igreja do Carmo, no Funchal, promove retiro de Advento e celebrações preparatórias para o Natal

A comunidade da Igreja do Carmo, no Funchal, anuncia o programa das iniciativas pastorais que marcarão o período de Advento e a preparação para o Natal. Entre os destaques está o Retiro de Advento, que acontecerá no dia 13 de dezembro, com início às 10h e conclusão com o almoço comunitário. As inscrições podem ser feitas na secretaria paroquial até ao dia 11 à noite.

Da iniciativa faz parte o Tríduo de São João da Cruz, que se realizará nos dias 11, 12 e 13 de dezembro, com novena às 18h e missa às 18h30. No dia 14, a comunidade celebrará a Festa de São João da Cruz, com concelebração às 18h30.

A programação encerra no dia 15, com o início das novenas do parto, celebradas às 07h, tradição profundamente enraizada na vivência natalícia madeirense.

As iniciativas convidam os fiéis a viverem um período de recolhimento, oração e preparação espiritual rumo ao Natal, reforçando o espírito comunitário e a identidade litúrgica local.

Domingo I do Advento (Ano A)

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,

Iniciamos hoje um novo ano litúrgico. O Advento abre-nos novamente a porta da esperança, convidando-nos a erguer o olhar, a afinar o coração e a renovar o desejo de Deus. A Palavra que a Igreja nos propõe neste primeiro domingo é exigente, talvez até desconcertante, porque fala de vigilância, de surpresa e de um futuro que não dominamos. O evangelho de São Mateus leva-nos àquela palavra breve mas decisiva de Jesus: “Vigiai!”

Jesus recorda-nos os dias de Noé: “Como nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem.” O que havia de particular nesses dias? Não era o facto de haver grande maldade ou algum acontecimento extraordinário. O Senhor diz algo mais simples e, por isso mesmo, mais inquietante: as pessoas viviam mergulhadas no quotidiano — comiam, bebiam, casavam… Tudo normal, tudo “como sempre”. E justamente aí está o problema. Viviam como se Deus não existisse, como se a história fosse apenas um ciclo natural de afazeres, conquistas e rotinas. Viviam distraídos, anestesiados pela normalidade.

O anúncio de Jesus não pretende provocar medo; pretende, isso sim, acordar-nos. O que destrói a vida espiritual, o que impede o encontro com Deus, não é tanto a maldade aberta, mas a indiferença, o adormecimento interior, aquela atitude que diz: “Ainda não é preciso mudar”, “um dia terei tempo”, “Deus espera”. Sim, Deus espera, mas a vida não. E a salvação acontece no hoje.

Jesus prossegue com duas pequenas parábolas: dois homens no campo – um será levado e outro deixado; duas mulheres a moer – uma será levada e outra deixada. À primeira vista, parecem palavras duras. Mas, na verdade, elas revelam algo muito importante: não é o lugar que ocupamos, não é a actividade que realizamos, nem é a aparência da nossa vida que nos salva. É o coração. É a relação viva com Deus. Dois homens fazem o mesmo trabalho; duas mulheres realizam a mesma tarefa. Mas o interior não é igual. O Advento convida-nos justamente a olhar para dentro, a perceber onde está o nosso coração.

E Jesus conclui: “Se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, vigiaria.” A imagem do ladrão é provocadora, mas é pedagógica. O Senhor não vem para roubar; vem para salvar. Porém, chega na hora que menos esperamos, para que não vivamos de cálculos, mas de amor. Quem ama não vigia por obrigação; vigia porque deseja, porque espera, porque o coração está aceso.

Irmãos e irmãs, este é o grande apelo do Advento:
Desperta! Recomeça! Reacende o desejo de Deus!

O Advento não é um tempo de ansiedade, mas de expectativa confiante. A sociedade à nossa volta já entrou na pressa do Natal comercial, mas a Igreja convida-nos a outra preparação, mais profunda e mais verdadeira. Não se trata apenas de preparar a celebração do nascimento de Jesus há dois mil anos; trata-se de abrir espaço para a vinda de Cristo agora — na nossa história, nas nossas famílias, nas nossas feridas, nos nossos sonhos. E trata-se, também, de orientar a vida para a vinda definitiva do Senhor no fim dos tempos.

Perguntemo-nos, então, com humildade:

Estou vigilante ou distraído?
O meu coração ainda espera algo de Deus?
A minha vida é conduzida pela fé ou apenas pelo ritmo dos dias?
Sou capaz de fazer silêncio, de rezar, de escutar, de me converter?

A vigilância cristã não é medo de perder algo; é o cuidado de não perder Alguém. Não é uma ansiedade nervosa, mas uma atenção amorosa. Quem está à espera de alguém que ama, prepara a casa, põe ordem na vida, reserva tempo, abre espaço.

Talvez este Advento seja para nós um convite a limpar aquilo que nos ocupa demasiado, a retirar o ruído que abafa a voz de Deus, a voltar a pequenos gestos que reacendem a fé: um momento diário de oração, uma leitura breve do Evangelho, um pedido de perdão, um acto de caridade escondida. A vigilância vive-se em gestos simples, mas verdadeiros.

Caríssimos irmãos, o Senhor está próximo.
O Advento recorda-nos que Deus nunca desiste de nós. Ele vem sempre, silenciosamente, inesperadamente, humildemente. E quer encontrar-nos de coração desperto, vigilante, desejoso.

Que Maria, Virgem da Expectação, nos ensine a viver este tempo com um coração aberto. Ela é a mulher vigilante por excelência — que escuta, que acolhe, que se deixa surpreender por Deus. Que ela nos acompanhe para que, no meio das rotinas da vida, saibamos reconhecer a visita do Senhor.

Assim seja.

Domingo XXXIV do Tempo Comum (Ano C)

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Caríssimos irmãos e irmãs,

Celebramos hoje a Solenidade de Cristo Rei, que encerra o ano litúrgico e nos convida a contemplar o Senhor Jesus como centro da história, sentido da nossa vida e meta da nossa caminhada. Mas, ao proclamarmos Cristo como Rei, não nos referimos a um rei à maneira do mundo, revestido de poder, ostentação ou domínio. O Evangelho mostra-nos exatamente o contrário: o trono de Jesus é a cruz; a sua coroa é de espinhos; o seu poder é o amor que se entrega até ao fim.

É precisamente na cruz que Jesus manifesta a verdadeira realeza. O Evangelho deste domingo coloca-nos diante de um diálogo impressionante entre Cristo e o “bom ladrão”. Um homem condenado, pendente da cruz, reconhece em Jesus aquilo que muitos poderosos da época não foram capazes de ver: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino”. E Jesus responde com a promessa mais bela e consoladora: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.

Que Reino é este, diante do qual um pecador arrependido é acolhido de imediato? O Reino de Cristo não se funda em territórios ou riquezas, mas na misericórdia, na justiça, na paz e na verdade. É um Reino que transforma o coração humano e nos abre à vida eterna. O poder de Cristo é o poder de quem perdoa, cura, levanta, reconcilia e introduz cada pessoa na dignidade de filho amado do Pai.

Caríssimos, ao celebrarmos Cristo Rei, somos também chamados a examinar a nossa vida para ver se realmente O deixamos reinar em nós. Deixamos que Cristo reine nos nossos pensamentos, nas nossas escolhas, no modo como tratamos os outros? Permitimos que Ele reine na nossa família, nos nossos relacionamentos, no nosso trabalho, na nossa comunidade cristã? Ou, pelo contrário, substituímo-Lo por outros “reis”: o individualismo, o consumismo, o orgulho, o poder, o comodismo?

Cristo deseja reinar, mas não força a porta: Ele pede o nosso “sim”. É um Rei que serve, que lava os pés, que procura a ovelha perdida, que acolhe o pecador arrependido. A sua realeza manifesta-se na capacidade de transformar o coração humano, quando este se abre à sua graça.

Hoje, ao concluirmos o ano litúrgico, a Igreja recorda-nos que toda a história converge para Cristo. Um dia Ele será tudo em todos. E nós, que hoje caminhamos muitas vezes entre sombras, dúvidas e fragilidades, seremos plenamente iluminados pela sua glória. Esta festa é, portanto, um convite à esperança. Não caminhamos ao acaso. Caminhamos para um encontro: o encontro definitivo com Cristo, Rei do Universo e Rei dos nossos corações.

Peçamos ao Senhor a graça de O reconhecermos como Rei na nossa vida e de nos deixarmos conduzir por Ele. Como o bom ladrão, saibamos dizer com sinceridade: “Jesus, lembra-te de mim”. E como resposta, possamos ouvir sempre a sua voz: “Hoje estarás comigo…”.

Que Cristo Rei reine nas nossas famílias, nas nossas paróquias e na nossa sociedade, pela força do amor que salva.

Amen.