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«Hão-de olhar para Aquele que trespassaram»

Cinco Chagas do Senhor – Festa

Evangelho segundo São João 19,28-37 (07-02-23)

Naquele tempo, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: «Tenho sede». Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, expirou. Por ser a Preparação da Páscoa, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado – era um grande dia, aquele sábado –, os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com Ele. Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: «Nenhum osso Lhe será quebrado». Diz ainda outra passagem da Escritura: «Hão de olhar para Aquele que trespassaram»

Meditação da Palavra

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

As chagas de Jesus são um escândalo, uma pedra de tropeço para a fé, mas são também a prova da fé. É por isso que, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas nunca passam: elas permanecem, pois são o sinal duradouro do amor de Deus por nós. São essenciais para acreditar em Deus. Não para acreditar que Deus existe, mas para acreditar que Deus é amor, misericórdia e fidelidade.

Quando celebramos hoje a festa das sagradas chagas de Jesus, Ele convida-nos a contemplar essas chagas, a tocá-las como Tomé, a curar a nossa falta de fé. Acima de tudo, convida-nos a entrar no mistério destas chagas, que é o mistério do seu amor misericordioso.

Através destas chagas, como numa abertura de luz, podemos ver todo o mistério de Cristo e de Deus: a sua paixão, a sua vida terrena, cheia de compaixão pelos fracos e pelos doentes, a sua encarnação no seio de Maria. E podemos reconstituir toda a história da salvação: as profecias – sobretudo sobre o Servo do Senhor -, os Salmos, a Lei e a Aliança; a libertação do Egipto, a primeira Páscoa e o sangue dos cordeiros imolados; e ainda, desde os patriarcas até Abraão, e depois até Abel, cujo sangue clamou da terra. Tudo isto podemos ver nas chagas de Jesus, crucificado e ressuscitado; com Maria, no seu Magnificat, podemos perceber que “a sua misericórdia se estende de geração em geração” (Lc 1,50).

Perante os acontecimentos trágicos da história da humanidade, podemos sentir-nos por vezes esmagados, perguntando-nos: “Porquê?” O mal da humanidade pode aparecer no mundo como um abismo, um grande vazio: vazio de amor, vazio de bondade, vazio de vida. E então perguntamo-nos: como podemos preencher este abismo? Para nós é impossível; só Deus pode preencher este vazio que o mal traz ao nosso coração e à história da humanidade. É Jesus, Deus feito homem, que morreu na cruz e que preenche o abismo do pecado com a profundidade da sua misericórdia.

Enquanto estamos nesta vida, o amor-perfeito está ligado ao lado doloroso do sacrifício que nos causa temor e tremor, como aconteceu com Cristo. Mas as chagas gloriosas de Cristo ressuscitado proclamam a vitória eterna da caridade divina, que é o princípio da felicidade eterna. Pela graça e pela caridade, não só veremos e gozaremos de Deus, mas tornar-nos-emos divinizados. Se somos divinizados, participamos da natureza divina, e se participamos da natureza divina, participamos também das próprias procissões das Pessoas Divinas.

O amor de Cristo pela Cruz é o caminho seguro para esta participação, para a participação na sua filiação, na sua oblação eterna ao Pai, de onde brota o Espírito de amor. O sinal do triunfo deste amor são as chagas gloriosas de Cristo. Ámen.

O amor de Cristo pela Cruz é o caminho seguro para esta participação, para a participação na sua filiação, na sua oblação eterna ao Pai, de onde brota o Espírito de amor. O sinal do triunfo deste amor são as chagas gloriosas de Cristo. Ámen.

P. Tomás Muzhuthett

«Deixais o mandamento de Deus para vos prenderdes à tradição dos homens»

EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS 7,1-13 (06-02-24)

Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. Na verdade, os fariseus e os judeus em geral só comem depois de lavar cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: “Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos”. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens». Jesus acrescentou: «Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição. Porque Moisés disse: “Honra teu pai e tua mãe”; e ainda: “Quem amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe deve morrer”. Mas vós dizeis que se alguém tiver bens para ajudar os seus pais necessitados, mas declarar esses bens como oferta sagrada, nesse caso fica dispensado de ajudar o pai ou a mãe. Deste modo anulais a palavra de Deus com a tradição que transmitis. E fazeis muitas coisas deste género».

Meditação da Palavra

S. Paulo Miki e os seus companheiros, viveram e morreram pela sua fé inabalável.

A preocupação dos fariseus com rituais e tradições exteriores é semelhante aos desafios que os cristãos enfrentam em todas as épocas. É fácil cair na armadilha de praticar atos religiosos sem uma verdadeira transformação do coração. S. Paulo Miki e os seus companheiros, martirizados em 1597 no Japão, são o exemplo de um profundo empenhamento em Cristo que transcende as práticas exteriores.

As suas vidas e o seu derradeiro sacrifício fazem eco das palavras de Jesus no Evangelho de hoje. Num mundo que muitas vezes valoriza as aparências em detrimento da autenticidade, somos convidados a examinar os nossos próprios corações. Estaremos nós, como os fariseus, concentrados em observâncias externas, ou estaremos a cultivar uma relação verdadeira e vibrante com Deus?

O Evangelho de S. Marcos encoraja-nos a abraçar uma espiritualidade que vai para além dos rituais, desafiando-nos a procurar uma profunda transformação interior. O que verdadeiramente importa não é o que entra no nosso corpo, mas o que emana do nosso coração. São Paulo Miki e os seus companheiros viveram esta verdade, escolhendo a fidelidade a Cristo mesmo perante a perseguição.

Ao refletirmos sobre o seu corajoso testemunho, perguntemo-nos: Como é que podemos aprofundar a nossa relação com Deus? Como é que a nossa fé pode ser mais do que uma mera observância exterior? Aprendamos com o exemplo dos mártires, permitindo que a sua coragem nos inspire a viver autenticamente, colocando Deus no centro das nossas vidas.

Em conclusão, que a memória de S. Paulo Miki e dos seus companheiros acenda em nós um desejo fervoroso de uma relação genuína e transformadora com Deus. Que o seu sacrifício seja um farol, guiando-nos para longe da religiosidade superficial e para uma fé que emana das profundezas dos nossos corações. Amém.

P. José Arun

«Jesus não se cansa de ensinar, curar e libertar»

DOMINGO V DO TEMPO COMUM

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 29-39)


Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.

Com os santos do Carmelo…

Refere São João da Cruz…

Buscando meus amores
Irei por esses montes e ribeiras,
Não colherei as flores,
Nem temerei as feras,
E passarei os fortes e as fronteiras.

A alma constata que, para encontrar o Amado, não bastam gemidos e orações, nem valer-se de bons medianeiros, como fez na primeira e na segunda canções. E, como o desejo com que O procura é verdadeiro e grande o seu amor, não quer deixar de realizar qualquer diligência que lhe seja possível, pois a alma que ama verdadeiramente a Deus não descansa sem fazer tudo quanto pode para encontrar o Filho de Deus, seu Amado. (Cb 3, 1)

Meditação

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

Hoje a Santa Madre Igreja convida-nos a louvar Cristo, que continua a fazer o bem. Ele e os seus apóstolos cumpriram a sua missão como uma responsabilidade e não como um fardo ou apenas por um salário. Por isso, ele liberta-nos e chama-nos a servir os outros gratuitamente.

No Evangelho de hoje, Jesus não se cansa de ensinar, curar e libertar do poder das trevas as pessoas que dele se aproximam. Isto inclui a sogra de Pedro. Além disso, Jesus encarava o seu ministério como uma responsabilidade, e não principalmente como um ganha-pão. Por isso, acima de tudo, era apaixonado pelo povo e preocupava-se pelo seu bem-estar.

Tal como Jesus e Paulo, devemos encarar o nosso chamamento e a nossa missão como uma responsabilidade, e não como um fardo ou uma recompensa mundana monetária. Salário ou recompensa não se refere apenas a dinheiro ou coisas materiais. Procurar deliberadamente elogios para o nosso trabalho e missão é também uma forma de exigir salário. Se o fizermos, já recebemos o nosso salário. Assim, quando atraímos para nós uma atenção indevida pelo trabalho que fazemos, é também uma forma de receber um salário por aquilo que deveria ser apenas da nossa responsabilidade.

Paulo estava “espiritualmente doente” até ter encontrado Cristo de forma providencial. Este encontro transformou a sua vida e fortaleceu a sua fé. Por isso, dedica-se à pregação da Boa Nova. Este é o seu testemunho: “Por causa do evangelho, fiz-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo e ter parte na sua bênção.” Assim, mais do que um salário, Paulo encara o seu chamamento como uma responsabilidade pela salvação dos outros. Era um pregador itinerante a tempo inteiro, sempre sedento da conversão de almas para Cristo.

Jesus pregava, curava e libertava as pessoas de todo o tipo de enfermidades e problemas. Ninguém o encontrava com fé sem ser curado. Se Jesus tem de nos curar, também nós temos de ter fé nele. Além disso, se a boa nova nos liberta, temos de acreditar nela.

O poder de Jesus continua a ser o mesmo hoje. Ele está pronto para curar aqueles que vêm a ele com fé. Está pronto a ter um encontro que muda a vida daqueles que estão dispostos a aproximar-se dele com humildade. Por isso, “louvemos o Senhor que cura os nossos corações despedaçados”.

A Escritura de hoje desafia-nos a escutar e a partilhar. Devemos seguir Jesus não só nos momentos felizes, mas também nos momentos de solidão e até de maior tribulação. Como ele, procuremos formas de chegar com amor às pessoas que estão preocupadas, doentes ou deprimidas – para deixar que o Senhor nos use para abençoar essas situações de alguma forma. Então, quando ele nos chamar para si, ter-nos-á deixado ser os seus olhos, o seu sorriso, os seus ouvidos e as suas mãos, trabalhando silenciosamente no mundo. 

Concluo com as palavras do Papa Francisco, somos chamados “a imitar o estilo de proximidade, compaixão e ternura de Deus…, a estar perto dos que sofrem e a fazer o que for possível para os aliviar, ou pelo menos para os fazer saber que não estão sós”.          Amém.

P. Tomás Muzhuthett, Ocd

Imagem retirada de: https://oratoriosaoluiz.com.br/evangelho-do-dia-a-cura-da-sogra-de-simao-mc-129-39l/

«Eram como ovelhas sem pastor»

EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS 6,30-34 (03-02-24)

Naquele tempo, os apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Comentário ao Evangelho

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

Hoje, há muitas pessoas que se sentem sozinhas, não amadas e não desejadas. Há muitas pessoas no nosso mundo que são como ovelhas sem pastor. E estão à espera de que as levemos até Jesus, o Bom Pastor. É mais fácil “passar ao lado” e não prestar atenção àqueles cujas necessidades são negligenciadas ou ignoradas. Mas Jesus, nosso Senhor e Mestre, chama-nos hoje a sermos bons pastores para essas mesmas pessoas que encontramos no nosso dia a dia.

“Ao desembarcar, viu uma grande multidão; e teve pena deles, porque eram como ovelhas sem pastor”. Certa vez, Madre Teresa visitou um lar de idosos em Calcutá. Era muito bem gerido – ordenado, arrumado e limpo. A comida servida era excelente. E os funcionários estavam bem treinados e eram muito eficientes. Ela apercebeu-se de que, de um modo geral, os idosos eram muito cuidados e tratados da melhor maneira possível.

Mas, ao circular entre aqueles idosos, reparou que nenhum deles sorria. Por outro lado, a Madre encontrou-os todos a olhar para a porta e a olhar pelas janelas. A Madre Teresa perguntou a uma das enfermeiras que lá estava, porque é que isso acontecia. E a enfermeira respondeu-lhe gentilmente: “Eles estão à espera de alguém que os venha visitar. Sim! Tinham sido, por assim dizer, abandonados ou deserdados pelas suas próprias famílias e amigos e colocados neste lar, sob o pretexto de lhes oferecer melhores cuidados. E aqui, Madre Teresa diria que há uma forma de pobreza pior do que a pobreza material. É estar “só, não ser amado e não ser desejado”.

Há pessoas na vossa vida que precisam que sejamos compassivas para com elas. Precisam que se preocupem com elas, que sejam pacientes e que tenham consideração por elas.

Segundo o Papa Francisco, “ver, ter compaixão e ensinar”: O primeiro e o segundo, “ver e ter compaixão”, encontram-se sempre juntos na atitude de Jesus… Ele olha sempre com “os olhos do coração”. Estes dois verbos, “ver e compadecer-se”, configuram Jesus como o Bom Pastor. A sua compaixão não é apenas um sentimento humano, mas é a emoção profunda do Messias, em quem a ternura de Deus se faz carne. Bem, queridos amigos, que tenhamos “olhos para ver”. E a minha oração para vós e para mim, hoje, é que sejamos capazes de sair daqui para sermos os pastores gentis de que o povo de Deus precisa no mundo. Deus vos abençoe a todos.   Ámen.         

P. Tomás Muzhuthett

«Os meus olhos viram a vossa salvação»

Apresentação do Senhor, festa.

Evangelho segundo São Lucas 2,22-40 (02-02-24)

Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor; e veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que dele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel, e para ser sinal de contradição; e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». Havia também uma profetiza, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela, e viúva até aos oitenta e quatro. Não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. Estando presente na mesma ocasião, começou também a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o Menino crescia, tornava-Se robusto e enchia-Se de sabedoria. E a graça de Deus estava com Ele.

Comentário ao Evangelho

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

A festa da apresentação de Jesus no Templo é também conhecida como a festa do encontro: a liturgia diz no início que Jesus vai ao encontro do seu povo. Assim, este é o encontro entre Jesus e o seu povo, quando Maria e José levam o seu filho ao Templo de Jerusalém; é o primeiro encontro entre Jesus e o seu povo, representado por Simeão e Ana.

Foi também o primeiro encontro dentro da história do povo, um encontro entre os jovens e os velhos: os jovens eram Maria e José com o seu filho bebé e os velhos eram Simeão e Ana, duas pessoas que iam frequentemente ao Templo.                                          

Assim, recordamos hoje com grande alegria o momento em que o Senhor foi apresentado diante de todos nós, como o único e verdadeiro Sumo Sacerdote e como aquele que nos traria a nossa salvação e a nossa libertação. Neste dia, todos nós recordamos a grande alegria que o velho homem de Deus, Simeão e a profetisa Ana, tiveram quando viram o Salvador e a salvação de Deus serem-lhes apresentado em carne e osso, aparecendo diante dos seus próprios olhos. Foi-lhes prometida a oportunidade de testemunhar a salvação de Deus antes de deixarem este mundo, e eles viram de facto a Luz da salvação de Deus, a Sua esperança e o Seu amor por todos nós. É por isso que, hoje, esta celebração é também conhecida como a Candelária, onde as velas são abençoadas e acesas, representando a Luz de Cristo, que é trazida para o mundo.

Voltemos à passagem evangélica e contemplemos de novo esta cena. Certamente, o cântico de Simeão e Ana não é fruto de um egocentrismo ou de uma análise e revisão da sua situação pessoal. Não ressoou porque estavam fechados em si mesmos e preocupados com a possibilidade de lhes acontecer algo de mau. O seu cântico nasce da esperança, a esperança que os sustenta na velhice. Essa esperança foi recompensada quando encontraram Jesus. Quando Maria deixa Simeão tomar nos braços o Filho da Promessa, o velho começa a cantar os seus sonhos. Sempre que ela coloca Jesus no meio do seu povo, este encontra a alegria. Só isso trará de volta a nossa alegria e a nossa esperança, só isso nos salvará de viver numa mentalidade de sobrevivência. Só isto tornará a nossa vida fecunda e manterá vivo o nosso coração: colocar Jesus no seu lugar, no meio do seu povo.

Irmãos e irmãs em Cristo, hoje, de modo especial, rezamos também por todos aqueles que se dedicaram à vida religiosa e consagrada, entregando-se a Deus de todo o coração. Neste Dia Mundial da Vida Consagrada, recordamos todos aqueles que seguiram os passos do Senhor, consagrando-se a uma vida santa e comprometida com Deus, e fazendo o que Deus ordenou que cada um deles fizesse, nas suas várias missões, nas suas várias ordens e instituições religiosas, organizações e grupos. Fizeram muitos sacrifícios e esforços para glorificar a Deus com as suas vidas, de muitas maneiras diferentes, e muitos deles também nos ajudaram e assistiram à sua maneira, durante todo este tempo. Rezemos todos para que possam ser fortalecidos, capacitados e encorajados por Deus em todas as coisas que fazem. Rezemos também por mais vocações para a vida consagrada, de vários tipos, para que aqueles que forem chamados possam responder positivamente ao seu chamamento.

Que o Senhor continue a guiar-nos e a abençoar-nos em toda a nossa vida, em tudo o que dizemos e fazemos, para que, através das nossas vidas e acções exemplares, continuemos sempre a crescer cada vez mais na fé, e continuemos a amá-Lo em todos os momentos, lembrando-nos sempre de como Ele nos amou tanto, que nos deu a todos o dom perfeito no Seu Filho, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, através do qual todos nós recebemos a garantia da vida eterna e da verdadeira felicidade e alegria com Deus. Que Deus abençoe todos os nossos bons esforços e empreendimentos, agora e sempre. Amém.

P. Tomás Muzhuthett

«Começou a enviá-los»

EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS 6,7-13 (01-02-24)

Naquele tempo, Jesus chamou os doze apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

Comentário ao Evangelho

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

O plano de jogo de Jesus pode ser resumido em duas palavras: “Segue-me”. Segue-me e eu farei de ti um pescador de pessoas. Segue-me e serás como eu. Segue-me e encontrarás a vida. Sigam-me e descobrirão o propósito e a missão do vosso reino. Segue-me e descobrirás verdadeiramente porque foste criado.

Jesus não se limitou a dar aos Seus seguidores conhecimentos e competências; transformou-os. E esta transformação não se deu através de regras e rituais, mas sim na relação com uma pessoa viva que andava entre eles. Os discípulos ficaram a conhecer a Sua personalidade, estilo, métodos e valores. Começaram a ver a vida de uma perspetiva diferente. O mesmo pode acontecer connosco.

Se somos seguidores de Jesus, então Jesus tem uma missão para nós. Ele está a ensiná-lo e a preparar-nos para essa missão. Está a equipar-nos e a dar-nos poder para essa missão. Há pessoas a quem foi dada a graça de partilhar o Evangelho, abençoar, dar conselhos bíblicos, corrigir com amor e encorajar. Temos de confiar n’Ele em tudo isto. Jesus não nos chamou para nos sentarmos e assistir, mas para sermos enviado e fazermos.

Ser apóstolo não é fácil. Significa esquecer-se de si próprio e colocar a sua confiança no Senhor, pois Ele será a sua voz ao falar a verdade. Deixar tudo para trás significa renunciar aos prazeres mundanos. Temos de renunciar às riquezas, pois o mais importante somos nós. Trata-se de aceitar a sua responsabilidade como um pilar que fala do Reino de Deus.

E para além dos nossos compromissos pessoais de tempo para o Senhor, devemos ter presente que Jesus enviou os seus apóstolos dois a dois. Precisamos de companhia no caminho. Precisamos de estar com outros que estão a basear as suas vidas no Senhor Jesus. Precisamos da companhia de outros cristãos que nos possam dizer como encontram Cristo nas suas vidas.

Hoje, Jesus também nos chama a pregar e a ensinar. Também nós somos seus discípulos. Jesus chama-nos a estender a mão e a tocar os outros com o nosso amor, carinho e preocupação. No mundo de hoje, em que quase toda a gente está com pressa ou demasiado ocupada para abrandar, podemos oferecer o nosso interesse, tempo e apoio. Isto pode não parecer uma grande prendo. No entanto, alguns minutos de verdadeira presença junto de outra pessoa podem ser o presente mais precioso que ela receberá.

Quem sabe: talvez seja abençoado quando alguém o presentear com a sua atenção e carinho!   Ámen.

P. Tomás Muzhuthett

«Um profeta só é desprezado na sua terra»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 6, 1-6)

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se à sua terra e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?». E ficavam perplexos a seu respeito. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

Comentário ao Evangelho

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

Um velho ditado diz que a familiaridade gera o desprezo. Será que isto se aplica a Jesus na passagem do Evangelho de hoje? Quando regressou à sua terra natal, Nazaré, os seus parentes ficaram admirados com as suas obras e pregações, mas não ficaram contentes. Provavelmente, porque o conheciam como um carpinteiro, como o seu pai José, e não esperavam que se tornasse profeta ou mestre. Por isso, Jesus não fez ali muitos milagres, devido à sua falta de fé.

Atualmente, algumas pessoas têm a mesma atitude. Depois de o conhecerem como tal, dificilmente podem acreditar que se pode tornar muito melhor do que antes. Por mais que tentem ser melhores, tentam mesmo puxar-nos para baixo. Por vezes, até a própria família e os amigos mais próximos não concordam com o que estamos a fazer.

É de lamentar este tipo de pessoas que não têm fé no potencial humano. E ainda mais porque se “ofendem” por fazermos o que é correto.

No entanto, não deixamos de ser bons só porque ninguém acredita em nós. Podemos não ser honrados por fazer o bem, mas Deus conhece as nossas intenções. Noutras partes do Evangelho, Jesus diz que Deus, que vê em segredo, acabará por nos dar a nossa recompensa. Em primeiro lugar, servimos não para sermos aplaudidos, mas para mostrarmos o nosso amor pelo Senhor. Não procuramos ser apreciados pelos outros, mas por Deus, que é o nosso único juiz.

Nas palavras de Santa Madre Teresa de Calcutá

As pessoas são muitas vezes irracionais, ilógicas e egocêntricas;

Perdoe-as na mesma.

Se fores bondoso, as pessoas podem acusar-te de egoísmo e de segundas intenções;

Seja bondoso na mesma.

Se fores bem-sucedido, ganharás alguns falsos amigos e alguns verdadeiros inimigos;

Seja bem-sucedido na mesma.

Se fores honesto e franco, as pessoas podem enganar-te;

Seja honesto e franco na mesma.

O que passas anos a construir, alguém pode destruir de um dia para o outro;

Construa na mesma.

Se encontrares serenidade e felicidade, as pessoas podem ter inveja;

Sê feliz na mesma.

O bem que fazes hoje, as pessoas esquecer-se-ão muitas vezes amanhã;

Faz o bem na mesma.

Dá ao mundo o melhor que tens, e isso pode nunca ser suficiente;

Dê ao mundo o melhor que tem na mesma.

Como vê, em última análise, é entre si e o seu Deus;

De qualquer forma, nunca foi entre ti e eles.

                                                                                                          Ámen.

P. Tomás Muzhuthett

Jesus cura…

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 5, 21-43)

Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Ora, certa mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-Lhe por detrás no manto, dizendo consigo: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». No mesmo instante estancou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo que estava curada da doença. Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo. Voltou-Se para a multidão e perguntou: «Quem tocou nas minhas vestes?». Os discípulos responderam-Lhe: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’». Mas Jesus olhou em volta, para ver quem O tinha tocado. A mulher, assustada e a tremer, por saber o que lhe tinha acontecido, veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade. Jesus respondeu-lhe: «Minha filha, a tua fé te salvou». Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talitha Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.

Comentário ao Evangelho

Caros irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

Vivemos num mundo com múltiplas pressões, problemas e pessoas que exigem a nossa atenção. Por vezes, somos capazes de atuar na realização de múltiplas tarefas e, outras vezes, falhamos completamente o alvo.  A passagem de hoje fala-nos de várias pessoas que precisam de Jesus e da forma como a sua resposta se relaciona com a satisfação das nossas maiores necessidades.

Marcos desperta-nos para a abundante graça curativa de Deus em Jesus. Em Jesus, há esperança, vida e comunidade para todos. Entretanto, temos tendência para deixar sair o Evangelho aos poucos. Somos mesquinhos com o que Deus dá tão generosamente. Preocupamo-nos em saber quem merece a nossa ajuda, a nossa comida, o nosso tempo, o nosso dinheiro e a nossa atenção. Calculamos cuidadosamente as condições em que nos inclinaremos para perdoar alguém.

Quando experimentamos a abundância da graça de Deus, não podemos deixar de levar Jesus a sério. Em Jesus, Deus tem uma forma de transformar o nosso riso desdenhoso em lágrimas de alegria, o nosso ceticismo em espanto sem palavras. O Evangelho está cheio de promessas que se tornam nossas quando levamos Jesus a sério:

A nossa fé é importante para a entrada na outra vida, mas tem de estar no objeto certo. Não podemos ter apenas uma fé geral – “Eu acredito em Deus”. Que Deus? Será que a fé é realmente o fundamento das nossas crenças e comportamentos? A fé é fundamental para o cristianismo – para a vida futura, mas também para a vida atual.

Se quisermos a bênção, temos de deixar as estradas que nos conduzem a caminhos sem saída ou os caminhos que não nos levam a jesus. Tal como a mulher, temos de andar confiantes e devotadamente no caminho de Jesus e procurar estar o mais perto possível d’Ele. Há cura debaixo das Suas asas, mas há perigo longe da Sua cobertura. Em que área da vida nos desviámos do plano de Deus?

Jesus não se importa com aquilo que somos. Não quer saber se sou tímido e envergonhado, jovem ou velho, um líder ou um excluído da sociedade. Ele conhece-nos, ama-nos, preocupa-se com as nossas necessidades, medos e crises, e está pronto a ajudar. Ele ouve os nossos apelos e sente os corações esperançosos no fim da fila e atrás da porta. A nossa personalidade, temperamento, estatuto, nem mesmo a nossa história de pecado podem erguer uma barreira que ele não possa derrubar como as muralhas de Jericó.

Qual é a nossa necessidade? Qual é a tua crise? Quais são os nossos medos? Leve-a a Jesus. Leve-a a ele da forma que lhe for mais conveniente. Ele ama-nos. Ele está do nosso lado. E está à espera. Amem.

P. Tomás Muzhuthett

«Ensinava-os como quem tem autoridade»

DOMINGO IV DO TEMPO COMUM


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 21-28)


Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas. Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!». E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

Com os santos do Carmelo…

Refere Santa Teresa…

«Oh, meu Senhor, como mostrais que sois poderoso! Não é preciso buscar razões para o que quereis, porque, sem que a razão natural entenda, Vós tornais as coisas tão possíveis que mostrais bem que não é preciso mais nada senão amar-Vos verdadeiramente e deixar tudo por Vós.» (Vida 35, 13) Bendito e louvado seja o Senhor, fonte de todos os bens que falamos, pensamos e fazemos. Amém. (Caminho de Perfeição 42, 7)

Meditação…


«Ensinava-os como quem tem autoridade». A autoridade de Jesus impera pela sua coerência de vida. É uma autoridade que faz-se compreender, «quem tem ouvidos que ouça». A autoridade de Jesus não é autoritarismo ou uma espécie de clericalismo. Toda ela tem uma pedagogia, é a pedagogia do amor. O amor é a única autoridade que pode dar frutos nos corações, é uma autoridade coerente com a vida e com aquilo que acredita, é a coerência entre palavras e atos. O amor constrói amizades, alimenta relações, destrói barreiras, dissipa dúvidas, fortalece laços, origina vida e liberta acorrentados, «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?». Esta pedagogia leva Cristo a entrar nos nossos problemas de fundo: «o homem possesso, o homem que não sabe, que não quer, que não consegue ser livre». A obediência de Jesus Cristo levou-O à morte, morte esta paradoxal a todas as autoridades do mundo, pois, a sua verdadeira autoridade é a autoridade do amor, ou seja, só quem obedece pode agir com autoridade e só quem é «humilde, próximo e coerente é que pode conquistar autoridade e confiança juntos dos crentes» (cf. Papa Francisco). E nós, podemos ter esta autoridade? Sim podemos, «trata-se, não de dizer o Evangelho, mas de praticar o Evangelho, não tanto de proclamar uma notícia, mas de se tornar boa notícia.»

– Ermes Ronchi; Marina Marcolini. A esperança que nasce da Palavra. Paulinas: 2014, p. 115.

https://snpcultura.org/papa_elogia_humildade_proximidade_coerencia_na_igreja_e_censura_clericalismo.html

Confia e mantém-te tranquilo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (MC, 4:35-41)

Sábado (27-01-24)


Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».

Comentário ao Evangelho

A história do Evangelho de hoje tem muita importância para nós. É incrível ver a paz que Jesus tinha nesta situação, em contraste com o completo tumulto que os discípulos experimentavam. Jesus sabia o que se estava a passar desde o início, porque repreendeu os discípulos pela sua falta de fé. Naquele momento, os discípulos tinham mais medo da tempestade do que confiança em Deus.

E também esta história põe em evidência algumas verdades fundamentais sobre a nossa caminhada com Cristo.  Na nossa humanidade, muitas vezes não vemos para além do momento presente. Os discípulos reagiram como nós provavelmente teríamos reagido. Tudo o que conseguiam ver era a iminência das ondas que ameaçavam tirar-lhes o futuro.

Muitos dos discípulos de Jesus eram pescadores. De vez em quando, deparavam-se com tempestades, mas esta era tão grande que os discípulos temiam pelas suas vidas. No momento da tempestade, os discípulos deviam ter-se lembrado dos milagres que tinham testemunhado enquanto andavam com Jesus, mas mesmo assim entraram em pânico em vez de confiarem em Jesus.

Mas a questão é a seguinte, para os discípulos de então e para nós agora. Embora o medo nos possa levar a pensar que estamos sós, a fé sabe que não é assim. Os discípulos não só se têm uns aos outros naquele barco, como também têm Jesus, literalmente, no barco com eles. E o barco deles nem sequer era o único barco a atravessar o mar. As Escrituras dizem-nos que havia outros barcos com eles. Agora, não sabemos o que se passava com esses outros barcos que estariam a passar pela mesma tempestade. Talvez porque, quando o caos se instala e os ventos aumentam, temos tendência a esquecer que o mundo é maior do que nós. O nosso medo pode levar a uma distorção da perceção. As coisas podem ficar mais pequenas, O mundo. As nossas capacidades, Os nossos recursos, Até a nossa perceção de Deus.

Antes de partirem, Jesus disse-lhes que chegariam à outra margem, mas quando a tempestade chegou, esqueceram-se das suas palavras e do que sabiam sobre o seu carácter. Todos nós nos podemos identificar com os discípulos neste momento. Quando os tempos são bons, é mais fácil confiar em Deus. Mas devemos lembrar-nos que, quando os tempos são difíceis, é ainda mais importante confiar em Deus. Quando ficamos com medo ou angustiados, estamos a expor a fraqueza da nossa fé em Jesus. Mostra que não estamos a confiar n’Ele e no Seu plano, e que Ele tem tudo controlado!

A vida não é previsível. Haverá tempestades pelo caminho, mas o carácter imutável de Deus oferece-nos uma base firme quando as coisas parecem instáveis e incertas. Jesus vive dentro de nós através do Espírito Santo, como cristãos, e estará sempre connosco.

P. Tomás Muzhuthett