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Exaltação da Santa Cruz

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Caríssimos irmãos e irmãs,

Hoje celebramos a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Não celebramos a cruz como instrumento de tortura ou de morte, mas como sinal de vida, de salvação e de amor extremo. A cruz de Cristo é o centro da nossa fé; nela está o mistério pascal que nos salva.

No Evangelho que escutámos, Jesus diz a Nicodemos:

«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do Homem será elevado, para que todo o que n’Ele crê tenha a vida eterna.»

Jesus recorda o episódio do livro dos Números: o povo, no deserto, mordeu-se pelo pecado e pelas serpentes, e Deus ofereceu um sinal de cura — uma serpente de bronze erguida num poste. Quem a olhasse com fé ficava curado. Esta imagem é uma profecia da Cruz. O Filho do Homem foi elevado, não num poste de bronze, mas na Cruz, para que todo o que n’Ele crê seja salvo.

E porquê? O próprio evangelho responde:

«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.»

Eis o coração da mensagem cristã: a Cruz não é derrota, é vitória do amor. Nela Deus mostra até onde vai a sua misericórdia. A Cruz é a medida do amor divino: um amor que não se fica pelas palavras, mas se entrega por inteiro.

Celebrar a Exaltação da Santa Cruz é, portanto, reconhecer que ali onde o mundo via fracasso, Deus revelou a glória; ali onde parecia haver apenas sofrimento, brotou a vida. A cruz tornou-se para nós sinal de esperança. Por isso, na liturgia, a veneramos e a beijamos. Não porque amemos o sofrimento, mas porque amamos Aquele que nela se entregou por nós.

Mas esta festa também nos interpela. Jesus disse: «Quem quiser seguir-Me, tome a sua cruz cada dia.» A cruz de cada um não é apenas um peso a suportar; é também um lugar onde o amor se pode manifestar. Quando aceitamos as nossas dificuldades com fé, quando perdoamos, quando servimos, estamos a transformar as nossas cruzes em sinais de redenção.

Neste dia, olhemos para a Cruz de Cristo e peçamos:
– que ela nos recorde sempre o amor de Deus,
– que nos ensine a amar sem medida,
– que nos dê coragem para carregar as nossas cruzes com fé e esperança.

Que a Cruz, sinal de vitória e de vida, nos guie para a Páscoa eterna.

DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM (Ano C)

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,

O Evangelho de hoje coloca-nos diante de palavras exigentes de Jesus. Ele fala às multidões que O seguiam, mas quer que compreendam que O discipulado não é um caminho fácil nem superficial. «Se alguém vem ter comigo e não Me prefere ao pai, à mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos e às irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo.»

À primeira vista, esta linguagem parece dura. Jesus não nos convida a desprezar os nossos familiares ou a nossa própria vida; pelo contrário, Ele chama-nos a amar com um coração livre, sem colocar nada nem ninguém acima de Deus. O amor de Cristo não anula os outros amores, mas purifica-os e ordena-os. Só quando Deus é o primeiro é que conseguimos amar verdadeiramente os outros de modo desinteressado.

Depois, Jesus fala da cruz: «Quem não carrega a sua cruz e não Me segue não pode ser meu discípulo.» A cruz, no contexto de Jesus, não era apenas símbolo de sofrimento, mas de entrega total e radical. O discipulado cristão não é um caminho de comodidade, mas de fidelidade, mesmo quando custa. Não significa procurar sofrimentos, mas aceitar, por amor, as renúncias que a fidelidade ao Evangelho implica.

Para ilustrar esta exigência, o Senhor apresenta duas pequenas parábolas: a do homem que quer construir uma torre e a do rei que se prepara para uma guerra. Ambas sublinham a importância de ponderar, discernir e planear antes de agir. Seguir Jesus não é fruto de um impulso momentâneo, mas de uma decisão consciente e perseverante.

Queridos irmãos, este Evangelho convida-nos a rever a nossa vida cristã. Até que ponto o Senhor ocupa o primeiro lugar no nosso coração? Quais são as “seguranças” ou “apegos” que impedem o nosso caminho de discipulado?

A boa notícia é que Jesus não nos pede nada que Ele próprio não tenha vivido primeiro. Ele renunciou a tudo, carregou a sua cruz e entregou-se por nós. É nessa fidelidade d’Ele que encontramos força para ser fiéis. E não caminhamos sozinhos: a graça do Espírito Santo sustenta-nos no caminho.

Neste domingo, peçamos ao Senhor a coragem de sermos discípulos autênticos: com o coração livre, carregando a nossa cruz de cada dia, colocando Cristo acima de tudo, para que a nossa vida seja um testemunho vivo do Evangelho no meio do mundo.

Ámen.

Domingo XXII do Tempo Comum

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

O Evangelho que hoje escutámos apresenta-nos Jesus numa refeição em casa de um fariseu, um daqueles momentos em que Ele aproveita situações da vida quotidiana para revelar a lógica de Deus, tão diferente da lógica do mundo.

Jesus observa como os convidados procuram os primeiros lugares e conta uma parábola que nos aponta para a humildade. A seguir, dirige-Se ao anfitrião e ensina a gratuidade: não convidar apenas aqueles de quem podemos esperar recompensa, mas abrir a mesa e o coração aos pobres, aos doentes, aos que nada têm para dar em troca.

Há aqui duas lições centrais: a humildade e a gratuidade.

Primeiro, a humildade. Na cultura do tempo, como ainda acontece hoje, os lugares de honra eram sinal de prestígio e reconhecimento. Jesus não condena a alegria de ser honrado, mas denuncia a vaidade e a busca do primeiro lugar como afirmação pessoal. Aos olhos de Deus, não conta quem se coloca acima dos outros, mas aquele que se faz servo. “Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” É o mesmo caminho de Cristo: Ele, que era Senhor, fez-Se servo até à cruz.

Segundo, a gratuidade. Jesus vai mais longe e fala ao anfitrião: não convides apenas os amigos e os ricos vizinhos, porque isso garante-te retribuição. Convida antes os pobres, os coxos, os cegos, porque não têm como pagar. Esta é a lógica de Deus: amar sem esperar nada em troca, dar sem calcular, servir sem procurar reconhecimento. É a lógica da graça, do dom gratuito.

Irmãos, o Evangelho desafia-nos hoje a rever o nosso modo de viver as relações:
– No dia-a-dia, somos muitas vezes tentados a procurar o “primeiro lugar”, seja no trabalho, na comunidade ou até na própria família. O Senhor convida-nos a descer, a escolher o lugar do serviço e da simplicidade.
– Nas nossas escolhas, quantas vezes procuramos apenas o que nos convém ou o que nos dá retorno. Jesus pede-nos um coração aberto, capaz de acolher quem não tem nada para dar senão a sua fragilidade.

A Eucaristia que celebramos é precisamente isto: um banquete oferecido a todos, sem distinções, onde Cristo é o anfitrião e nós somos convidados, não pelos nossos méritos, mas pela sua graça. Aqui, aprendemos a humildade de nos reconhecermos necessitados, e a gratuidade de partilhar o que recebemos.

Peçamos ao Senhor que nos dê um coração semelhante ao d’Ele: humilde, para não buscar os primeiros lugares; e generoso, para amar sem esperar recompensa. Assim a nossa vida será reflexo do Reino onde todos têm lugar, sobretudo os mais pequenos.

Ámen.

Domingo XXI do Tempo Comum

Caríssimos irmãos e irmãs,

O Evangelho de hoje apresenta-nos Jesus a caminho de Jerusalém, onde se cumprirá a sua Páscoa. No meio da caminhada, alguém pergunta: “Senhor, são poucos os que se salvam?” É uma pergunta antiga, mas ainda muito atual: quantos se salvam? Será difícil entrar no Céu?

A resposta de Jesus não é uma estatística, não é um número. Ele não responde “muitos” ou “poucos”. Ele responde com um convite exigente: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita.” Ou seja, o que importa não é a curiosidade sobre quantos, mas a seriedade com que cada um vive a sua relação com Deus.

A porta estreita é Cristo. É estreita não porque Deus queira excluir, mas porque exige verdade, humildade e conversão. Não é larga como o caminho da indiferença ou do comodismo; é estreita porque só se entra sem fardos: sem orgulho, sem egoísmo, sem a falsa segurança de achar que basta dizer “Senhor, Senhor”.

Jesus adverte-nos: “Virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus.” Isto lembra-nos que a salvação é dom oferecido a todos os povos, e que nós, que nos consideramos “de casa”, não temos lugar garantido. A familiaridade exterior com a fé – conhecer ritos, palavras, tradições – não substitui a conversão do coração e a prática da justiça e da caridade.

“Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.” Estas palavras de Jesus são um alerta e, ao mesmo tempo, uma esperança. Alerta, porque nos desafia a não nos contentarmos com aparências religiosas, mas a viver uma fé autêntica, que se traduz no amor concreto. Esperança, porque ninguém está excluído: até aquele que se sente “último”, esquecido ou afastado, pode ser acolhido e transformado pela graça de Deus.

Caríssimos irmãos, hoje o Senhor diz-nos: não perguntem “quantos”, perguntem “como estou eu a viver a minha fé?”. A salvação é para todos, mas exige de cada um de nós empenho, luta interior, esforço diário por escolher a verdade, a justiça, a caridade.

Peçamos ao Senhor que nos dê coragem para caminhar pela porta estreita – que é Ele próprio – com o coração humilde, mãos limpas e vida entregue ao amor. Assim, um dia, também nós nos sentaremos à mesa do Reino, junto de todos os irmãos e irmãs que deixaram que a graça de Deus os transformasse.

Ámen.

​​​​​​​Pe. José Arun OCD

Domingo XVI do Tempo Comum (Ano C)

Caríssimos irmãos e irmãs,

No Evangelho, vemos Jesus a visitar a casa de duas irmãs: Marta e Maria. Aparentemente, é uma cena simples e doméstica. No entanto, carrega uma profunda lição para a nossa vida de fé.

Marta, diligente e acolhedora, está preocupada em servir bem. Corre de um lado para o outro, inquieta com os preparativos. Maria, por sua vez, senta-se aos pés de Jesus e escuta atentamente as Suas palavras.

Jesus dirige-se a Marta com ternura: “Marta, Marta, andas inquieta com muitas coisas…” — e aponta que uma só é necessária. Maria escolheu essa parte: a escuta da Palavra, a presença silenciosa diante do Senhor.

Esta passagem não nos convida a desprezar o serviço. Pelo contrário, Jesus também nos ensina a servir. Mas aqui Ele quer ensinar-nos a dar prioridade à escuta, à contemplação, à intimidade com Deus.

Na nossa vida, muitas vezes parecemos mais com Marta. Vivemos apressados, ocupados com mil tarefas — mesmo na Igreja. Organizamos actividades, tratamos de tudo… mas por vezes esquecemo-nos de escutar o Senhor, de estar com Ele.

Maria ensina-nos que o verdadeiro discípulo é aquele que, antes de fazer, sabe parar, silenciar e escutar. A partir daí, o serviço torna-se mais fecundo, mais sereno, mais enraizado em Deus.

Não se trata de opor Marta a Maria. A vida cristã precisa das duas dimensões: acção e contemplação. Mas Jesus deixa claro: a escuta deve vir primeiro.

Hoje, Jesus pergunta-nos:

E tu, onde tens colocado o teu coração?

Tens tempo para mim, ou andas sempre inquieto com muitas coisas?

Que esta celebração nos ajude a recentrar a nossa vida. A escolher, como Maria, a melhor parte — aquela que ninguém nos pode tirar: a presença de Jesus, a Sua Palavra, a intimidade com Ele.

E que, como Marta, também O sirvamos, mas com o coração enraizado na escuta e na paz.

Ámen.

José Arun

Domingo xv (Ano C)

Quem é o meu próximo?”

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

No Evangelho de hoje, São Lucas apresenta-nos uma das parábolas mais tocantes e desafiadoras do ministério de Jesus: a parábola do Bom Samaritano. Tudo começa com uma pergunta de um doutor da Lei, que tenta pôr Jesus à prova:
“Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?”

Jesus responde-lhe com outra pergunta:
“Que está escrito na Lei?”
E o homem responde corretamente: amar a Deus e ao próximo. Mas, querendo justificar-se, volta a perguntar:
“E quem é o meu próximo?”

É aqui que Jesus conta a parábola: um homem é assaltado e deixado meio morto à beira da estrada. Passam por ele um sacerdote e depois um levita, mas ambos seguem adiante. Só o samaritano, um estrangeiro e considerado “impuro” pelos judeus, se compadece e cuida do homem ferido.

Jesus termina com uma inversão desconcertante:
Não responde directamente “quem é o próximo”, mas pergunta:
“Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?”
E a resposta é clara: “Aquele que usou de misericórdia.”

Três lições para a nossa vida:

O amor não tem fronteiras
– O samaritano não perguntou quem era aquele homem. Não quis saber se era judeu, estrangeiro, rico ou pobre. O sofrimento bastava para que o reconhecesse como seu próximo.

A compaixão verdadeira exige acção
– O samaritano não se limitou a sentir pena. Aproximou-se, cuidou das feridas, levou o homem à estalagem e pagou as despesas. O amor cristão é concreto, prático, visível.

Ser próximo é uma escolha
– Jesus muda o foco da pergunta: não é “quem é o meu próximo?”, mas “de quem eu me torno próximo?” Ser próximo é uma atitude activa, que rompe barreiras culturais, sociais e até religiosas.

Irmãos, nesta parábola Jesus ensina-nos que a verdadeira religião está na misericórdia. Ser cristão não é apenas conhecer os mandamentos, mas vivê-los com o coração, com as mãos e com o tempo.

Que nesta semana, cada um de nós possa “ir e fazer o mesmo”, como nos diz Jesus. Que saibamos reconhecer o sofrimento à nossa volta e agir com compaixão, como o bom samaritano.

Ámen.

José Arun

Enviou-os dois a dois

P. José Arun

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

Neste  Evangelho segundo São Lucas, capítulo 10, versículos 1 a 12, somos convidados a contemplar um momento essencial da missão de Jesus: o envio dos setenta e dois discípulos. Não se trata apenas de um episódio histórico, mas de um apelo atual e permanente da Igreja, dirigido a cada um de nós.

“O Senhor designou outros setenta e dois e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.” (Lc 10,1)

Logo aqui percebemos que a missão não é iniciativa dos discípulos, mas de Jesus. Ele é quem chama, quem envia e quem conduz. A missão é sempre de Deus — nós somos colaboradores. Ao enviá-los dois a dois, Jesus sublinha o valor da comunhão e do testemunho partilhado: não somos enviados sozinhos, mas como Igreja, como comunidade.

Jesus adverte os discípulos:

“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe.” (Lc 10,2)

Este versículo continua a ser verdadeiro hoje. A messe — ou seja, o mundo sedento de Deus, de sentido, de amor — é vasta. Mas muitas vezes faltam anunciadores corajosos, fiéis, disponíveis. Por isso, antes de ir, Jesus manda rezar. A missão nasce da oração, não do ativismo. É na oração que discernimos a vontade de Deus e ganhamos força para cumprir o que Ele nos pede.

Jesus não esconde a dificuldade:

“Vou enviar-vos como cordeiros para o meio de lobos.” (Lc 10,3)

Evangelizar não será fácil. Haverá rejeição, resistência, talvez até perseguição. Mas é precisamente no meio das dificuldades que o discípulo brilha com a luz do Evangelho. Ser cordeiro entre lobos não é sinal de fraqueza, mas de confiança no Pastor que nos envia.

Depois vêm instruções muito concretas: não levar bolsa, nem alforge, nem sandálias, não se deter em saudações demoradas… tudo isto indica urgência, desprendimento, confiança na providência. O missionário deve ser leve, livre de amarras, pobre de bens, mas rico de fé e de amor.

A missão é anunciar a paz:

“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa’.” (Lc 10,5)

A missão da Igreja não é impor, mas propor a paz de Deus, construir pontes, curar feridas. O Evangelho é boa notícia para todos, e começa por oferecer aquilo que o mundo mais deseja: paz verdadeira, que vem de Cristo.

Finalmente, Jesus avisa:

“Se não vos receberem, saí para as ruas… e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade… sacudimos contra vós’.” (Lc 10,10-11)

Mesmo quando a mensagem não é acolhida, o discípulo não se revolta, não impõe. Apenas sacode o pó e segue caminho. Isto ensina-nos a liberdade interior do evangelizador: faz o que lhe compete com amor e verdade, mas sem se apegar aos resultados.

Queridos irmãos, esta leitura é um forte apelo a cada um de nós. Todos, pelo batismo, somos discípulos-missionários. Não precisamos ir longe: a missão começa na nossa casa, no trabalho, entre vizinhos e amigos. Onde quer que estejamos, somos chamados a levar paz, alegria, esperança e o testemunho vivo de Cristo.

Peçamos ao Senhor que nos envie, que nos fortaleça, e que faça de nós trabalhadores fiéis da sua messe. Que sejamos mensageiros da paz e da Boa Nova, com coragem, humildade e alegria.

Ámen.

«És o Messias de Deus. O Filho do homem tem de sofrer muito»

DOMINGO XII DO TEMPO COMUM

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Batista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».

Meditação da Palavra

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,

O Evangelho de hoje coloca-nos diante de uma das perguntas mais importantes de toda a nossa fé. Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem as multidões que Eu sou?” E depois, mais diretamente: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

Esta pergunta, feita há dois mil anos, permanece viva hoje. Porque não é apenas uma questão para os discípulos de então. É uma pergunta que Jesus dirige a cada um de nós. No silêncio do nosso coração, Ele continua a perguntar: “Quem sou Eu para ti?”

Pedro, inspirado pelo Espírito, responde com fé: “És o Messias de Deus.” É a resposta certa, mas Jesus logo os adverte para que não espalhem isso. Porquê? Porque os discípulos ainda não compreendiam bem o que significava ser o Messias. Não era o Messias glorioso e triunfante que muitos esperavam. Era o Messias que haveria de sofrer, ser rejeitado, morrer e ressuscitar ao terceiro dia.

E é aqui que Jesus nos surpreende. Porque Ele não apenas revela o seu caminho de cruz, mas também nos convida a segui-Lo nesse mesmo caminho:
“Se alguém Me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-Me.”

Meus irmãos, o seguimento de Jesus não é feito apenas de palavras bonitas ou de momentos festivos. Seguir Jesus é um caminho de entrega, de renúncia, de amor que se doa até ao fim. Tomar a cruz cada dia é assumir as nossas responsabilidades, é amar quando custa, é perdoar quando dói, é manter a fé mesmo nas noites escuras da vida.

Jesus diz-nos ainda:
“Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á.”
Estas palavras parecem duras, mas são a chave da verdadeira liberdade. Porque só quando deixamos de viver centrados em nós mesmos é que descobrimos o dom de viver para os outros, e para Deus.

Na cruz de cada dia está escondido um mistério de salvação. Quando a aceitamos com fé, como Jesus aceitou a d’Ele, a nossa vida transforma-se. Torna-se fecunda. Dá fruto.

Caros irmãos, esta semana que agora começa, deixemos ecoar no coração aquela pergunta de Jesus:
“E vós, quem dizeis que Eu sou?”
Que a nossa resposta não seja apenas de palavras, mas de vida. Que seja uma resposta feita de escolhas concretas, de amor vivido no quotidiano, de fidelidade silenciosa nas pequenas coisas. E se a cruz nos pesar, lembremo-nos: não a carregamos sozinhos. Jesus caminha connosco.

Maria, Mãe fiel junto da cruz, nos ajude a seguir o seu Filho com coragem e amor.

Ámen.

Pe. José Arun

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós: Recebei o Espírito Santo»

DOMINGO DE PENTECOSTES

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,

Neste Domingo celebramos com alegria a grande Solenidade de Pentecostes, o dia em que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos, reunidos no Cenáculo com Maria, a Mãe de Jesus. É uma das festas mais importantes do calendário cristão, pois assinala o nascimento da Igreja, animada e conduzida pelo Espírito do Senhor.

No Evangelho de hoje, escutamos Jesus Ressuscitado a aparecer aos discípulos e a dizer-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Este gesto de soprar sobre eles remete-nos à criação, quando Deus soprou sobre o homem e ele se tornou um ser vivo. Agora, Jesus dá início a uma nova criação, através do dom do Espírito: uma humanidade renovada no amor, na fé e na missão.

Os discípulos estavam fechados em casa, cheios de medo. O medo paralisa-nos, torna-nos estagnados e fechados ao outro. Mas com a vinda do Espírito, as portas abrem-se e os corações inflamam-se de coragem. Pentecostes é o dia em que o medo dá lugar à confiança e à ousadia. O mesmo Espírito quer hoje libertar-nos dos nossos medos: o medo de assumir a fé, o medo de amar com radicalidade, o medo de perdoar, o medo do futuro.

Nos Actos dos Apóstolos, ouvimos que pessoas de diversas línguas e nações compreendiam os Apóstolos cada um na sua própria língua. Isto mostra-nos que o Espírito não elimina as diferenças, mas cria harmonia na diversidade. Onde o Espírito Santo está, há comunhão, há entendimento, há paz. Num mundo tão marcado por divisões e conflitos, somos chamados a ser instrumentos de reconciliação e unidade.

Jesus tinha prometido: “Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas” (Act 1,8). O Espírito Santo não é apenas uma força interior para consolo pessoal — é a força que nos impulsiona a anunciar o Evangelho com audácia. O mesmo Pedro que antes tinha negado Jesus, levanta-se agora com firmeza e anuncia Cristo ressuscitado. Assim também nós: quando abrimos espaço ao Espírito, Ele transforma as nossas fraquezas em coragem, e os nossos silêncios em testemunho.

Pentecostes não é apenas uma memória do passado. É uma realidade viva, que continua a acontecer na Igreja e em cada um de nós. Em cada Baptismo, em cada Crisma, em cada oração sincera, o Espírito continua a ser derramado. O mundo precisa de cristãos cheios do Espírito: com fé viva, com esperança ativa, com caridade concreta.

Caríssimos irmãos, neste dia de Pentecostes, não peçamos apenas dons ou sinais. Peçamos, com humildade e confiança, o próprio Espírito Santo. Que Ele venha renovar os nossos corações, as nossas famílias, a nossa paróquia e toda a Igreja. Que reacenda em nós o fogo do primeiro amor, e nos faça verdadeiras testemunhas de Cristo no mundo.

Vinde, Espírito Santo! Enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor! Amém.

Pe. José Arun

«Enquanto os abençoava, foi elevado ao Céu»

DOMINGO VII DA PÁSCOA: ASCENSÃO DO SENHOR

SOLENIDADE

Conclusão do santo Evangelho segundo São Lucas


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso. Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos com a força do alto». Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu. Eles prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.

Homilia Pe. José Arun

Homilia sobre Lucas 24,46-53 – Domingo da Ascensão do Senhor

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

Neste Domingo da Ascensão do Senhor, a liturgia convida-nos a contemplar um momento decisivo na missão de Jesus e na vida da Igreja nascente. O Evangelho segundo São Lucas (24,46-53) apresenta-nos Jesus ressuscitado, despedindo-Se dos Seus discípulos. Mas reparemos: não o faz com tristeza, nem em tom de adeus, mas com a promessa do Espírito, com uma missão clara e com uma bênção que permanece.

“Assim está escrito: o Messias havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia.”
Com estas palavras, Jesus recorda aos discípulos que a Sua paixão, morte e ressurreição não foram tragédias imprevistas, mas parte do plano de Deus para a salvação da humanidade. A cruz não é o fim – é o caminho. A ressurreição não é apenas o fecho de uma história gloriosa, mas o início de uma nova etapa: a da missão da Igreja. E agora, com a Ascensão, Jesus não desaparece – Ele eleva-Se para estar presente de uma forma nova e universal.

“Em seu nome hão-de ser pregados a conversão e o perdão dos pecados a todos os povos.”
Este é o coração da missão confiada por Jesus: o anúncio da conversão e do perdão. A Ascensão marca o início do tempo da Igreja. Jesus sobe ao Céu e envia-nos a nós, os seus discípulos, à Terra, para dar continuidade à Sua obra. Onde houver feridas, seremos instrumentos de cura; onde houver pecado, levaremos o perdão; onde houver desânimo, levaremos a esperança.

“Vós sois testemunhas de todas estas coisas.”
Ser testemunha não é apenas recordar o que aconteceu, mas tornar presente, com a própria vida, aquilo que se viu e se viveu. Jesus confia-nos esta missão com total confiança. A Ascensão não é uma separação, mas uma passagem: Jesus entrega-nos a missão, e promete-nos o Espírito Santo como força e guia.

“Depois levou-os para fora, até junto de Betânia, e, levantando as mãos, abençoou-os.”
Jesus parte enquanto abençoa. Que imagem bela e consoladora! Ele não parte com exigências ou julgamentos, mas com bênçãos. Essa bênção não terminou ali – permanece sobre a Igreja, sobre nós. E essa bênção é também uma força que nos envia: com coragem, com paz e com alegria.

E qual é a reacção dos discípulos?
“Eles prostraram-se diante d’Ele. Depois regressaram a Jerusalém com grande alegria.”
Jerusalém, que fora o palco do sofrimento e da morte, torna-se agora o ponto de partida da missão. E reparemos: os discípulos não estão tristes. Estão cheios de alegria, porque compreenderam que Jesus não está ausente, mas presente de outra forma – e que o Espírito Santo está para chegar.

Queridos irmãos e irmãs,

Que esta solenidade reavive em nós o ardor missionário, a confiança na presença viva de Cristo e o desejo profundo de sermos testemunhas do Ressuscitado no nosso mundo. Que saibamos olhar para o Céu com esperança, sem nunca deixar de amar, servir e transformar o mundo à nossa volta.

Ámen.