Domingo XXIV do Tempo Comum (Ano A)

A Liturgia deste Domingo volta ao tema do perdão na comunidade salientando as contas que, a este respeito, não podem ser feitas, porque no Reino de Deus as oportunidades são ilimitadas. Por natureza, somos calculistas, registamos os danos e inclinamo-nos para “ajustar as contas” como meio para sanar os conflitos. Mas, nestas coisas da reconciliação e do perdão, não é através dos números ou dos ajustes com os critérios da cobrança das dívidas que se chega ao restabelecimento das relações. No Reino de Deus só se conhece o zero nas dívidas e, no perdão, o infinito. É a isso que nos referimos quando dizemos que a misericórdia de Deus é infinita e não tem limites. Tanto o perdão como as virtudes que acompanham o ato de perdoar não podem estar limitadas por um plafom.

1. O perdão é exigente

– É curioso notar que, a pergunta de Pedro no Evangelho de hoje, “se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe?”, à qual Jesus responde que deve ser “sempre”, dá por suposta a ofensa, mas não esclarece se antes houve arrependimento para que o ofendido possa perdoar a quem ofendeu. É que, neste processo de reconciliação, nós costumamos colocar, no início, o ato de arrependimento como condição para perdoar. Ora, tanto o livro do Eclesiástico como o Evangelho, colocam em relevo unicamente o perdão…

– Dá a impressão que, mesmo que o irmão não peça perdão, deve ser perdoado… O livro do Eclesiástico fixa-se na necessidade de ultrapassar o sentimento de vingança como condição para se poder apresentar diante de Deus e implorar para si o perdão e dirigir outras súplicas ao Senhor. A exigência do perdão impõe-se como um ato gratuito e não pode ser só a resposta ao arrependimento do outro porque o ofendido, enquanto não perdoar, não pode ficar tranquilo… O perdão é o primeiro passo e até parece que é o perdão que deve gerar o arrependimento…

– A ordem parece ser a seguinte: perdão, arrependimento com reconhecimento do erro, vontade de mudar… Isto significa que o perdão é exigente; é o ato de perdoar, numa relação fraterna, que desencadeia o processo da reconciliação… A segunda parte da parábola do Evangelho ilustra bem este ponto: é necessário tirar consequências do ter sido perdoado. Aquele a quem se tinha perdoado uma grande dívida não reconheceu que ele próprio também tinha de perdoar como efeito de ter sido perdoado e, por isso, o processo de reconciliação não avançou…

– Tudo isto só se compreende e só tem possibilidade de concretização se, a par do sentimento de fraternidade, houver a consciência filial… É nesta perspetiva que se entende a parábola contada por Jesus e que parece contradizer a ideia da misericórdia sem limites ao admitir que o perdão concedido seja revogado. A questão que a parábola pretende clarificar é esta: se Deus usa de misericórdia com cada um de nós, como poderemos nós negar o perdão ao outro? Só quem descobre que foi perdoado tem a capacidade de gerar perdão e de restabelecer relações em ordem ao futuro. Quem não experimenta isto, na relação com Deus, como filho, terá sempre mais dificuldade de perdoar aos outros.

– A nossa fraternidade é baseada na filiação divina e não noutras quaisquer categorias…. Só a partir da condição filial comum é que se pode construir uma comunidade de irmãos… Nesta base, a exigência de justiça que passaria pela punição do ofensor para sanar a quebra das relações, também perde sentido, porque só o perdão oferece ao outro a possibilidade de se arrepender…

2. Só o amor liberta

– A parábola de Jesus confirma que só se pode aprender a perdoar a partir da nossa relação com Deus… À medida que crescemos nesta relação de encontro com Deus podemos fortalecer a nossa capacidade de perdoar… 

– Gostamos muito de rezar a oração atribuída a S. Francisco de Assis: “Senhor, faz de mim um instrumento da tua paz: onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver ofensa, que eu leve o perdão, onde houver discórdia, que eu leve a união… Que eu procure mais consolar do que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar do que ser amado…” Pois, esta oração só se compreende a partir do amor de Deus. Na medida em que colocamos o amor acima de tudo nas nossas relações, este amor tende a prevalecer e a aumentar a qualidade da nossa vida em comum.

– A vingança só serve para agravar a dor e perverter o sentido da justiça… Só o amor que se oferece é a resposta adequada aos conflitos e ao sofrimento que estes provocam…

– A pergunta que fica, no final, é esta: como fazer compreender ao mundo de hoje este dinamismo do perdão? Primeiro que tudo, deve provar-se que se pode perdoar… E consciencializar mais profundamente o que rezamos no Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos ofende”… Não há amor sem perdão nem perdão que não seja expressão de amor para quem nos ofende…

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